Quais os possíveis efeitos da redução da jornada de trabalho sobre as emissões no Brasil?
Os autores agradecem as contribuições de Pedro Romero Marques para a revisão atenta do texto.
Após semanas de amplas discussões coletivas e debates públicos e no Congresso Nacional, foi aprovada a proposta de emenda à constituição de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6x1 na Câmara dos Deputados no dia 27 de maio. Ainda assim, o tema segue no Senado Federal, e as dúvidas a respeito dos diferentes efeitos potenciais desta mudança seguem sendo revisitadas no debate público. Um aspecto ainda pouco explorado neste debate, embora bastante relevante, dado o compromisso do governo federal com um programa de transformação ecológica com justiça social, é o impacto ambiental associado à redução da jornada de trabalho.
Os possíveis efeitos da redução da jornada de trabalho sobre variáveis ambientais são discutidos principalmente pela literatura de economia ecológica. Essa literatura identifica que os impactos de uma redução de jornada sobre a saúde do meio ambiente podem ocorrer por duas frentes: um efeito escala, associado à influência da mudança das horas trabalhadas no nível de atividade econômica; e um efeito composição, resultante da mudança de hábitos e comportamentos em função do ganho de tempo que os trabalhadores passam a ter com a redução da jornada e a mudança da escala de dias trabalhados (Knight et al., 2013; Antal et al., 2020; Cieplinski et al. 2021).
O efeito escala, mais especificamente, refere-se ao impacto imediato que uma redução das horas trabalhadas, tudo mais constante, geraria em termos de redução do produto. Se uma menor carga de trabalho generalizada for acompanhada por uma redução na produção total, é razoável esperar uma queda na renda disponível das famílias. Tem-se, como consequência, uma redução do nível total de consumo e, como efeito secundário, uma queda das emissões provenientes dos gastos das famílias e indivíduos com bens e serviços. Desse modo, o efeito escala, nos casos em que a redução de jornada de trabalho está associada a uma redução dos salários, teria como mecanismo um efeito renda, em que a pressão ao meio ambiente reduz pela diminuição da renda disponível das famílias (Nässén & Larsson 2015). Tais encadeamentos poderiam promover, então, menores emissões e uso reduzido dos recursos naturais, como resultado da redução no nível do consumo familiar (Antal et al., 2020; Buhl & Acosta, 2016; Nässén & Larsson 2015).
Ao se refletir sobre o caso brasileiro, é possível ponderar essas considerações. Por um lado, como discutem Klein et al. (2026), o Brasil não parece se enquadrar a um cenário em que a redução da jornada de trabalho teria implicações de grande magnitude sobre o nível de atividade econômica. Portanto, impactos sobre variáveis ambientais (consumo de energia elétrica, volume de resíduos sólidos gerados, as emissões diretas e indiretas de carbono) via efeito escala tenderiam a ser limitados.
Por outro lado, o efeito composição se mostra mais relevante para discutir possíveis impactos das propostas de mudança da jornada de trabalho, na medida em que se refere à mudança no tipo do consumo realizado pelas famílias. O efeito composição decorre do fato de que indivíduos alocam seu tempo disponível ao longo de seu dia a dia em diferentes atividades (Antal et al., 2020). Nesse sentido, a depender de sua jornada de trabalho, seu tipo de consumo pode ser direcionado para o gasto com bens e serviços mais ou menos intensivos em carbono (Fremstad et al., 2019). Algumas abordagens sustentam que com jornadas mais longas, as pessoas tenderiam a ter menos tempo para atividades menos poluentes, como ir ao trabalho de bicicleta, por exemplo, ou realizar suas refeições em seu próprio domicílio, em vez de se alimentar em restaurantes ou pedir comida por delivery (Hayden & Shandra, 2009; Pullinger, 2014). Desse modo, a falta de tempo livre levaria a um consumo ainda mais intensivo em recursos, com o lazer estando baseado, fundamentalmente, no consumo material (Buhl & Acosta, 2016). Destaca-se, então, que poderia haver uma reorganização do tempo que impactaria os efeitos ambientais do consumo: o efeito composição, portanto, estaria diretamente associado a um efeito tempo da redução de jornada (Hayden & Shandra, 2009; Nässén & Larsson, 2015).
Porém, há divergências em relação à magnitude e ao sentido do efeito composição. Parte da literatura argumenta que o maior tempo disponível, a partir da redução das horas trabalhadas, poderia gerar impactos ambientais negativos, destacando os chamados efeitos rebote (rebound effects) de mudanças do consumo (Druckman et al., 2012; Buhl & Acosta, 2016; Lajeunesse, 2009 apud Shao & Rodríguez-Labajos, 2016; Antal et al., 2020; Sorrell, 2020). Esses efeitos referem-se, de maneira geral, a diferentes mecanismos econômicos que poderiam compensar negativamente os impactos positivos de uma redução antecipada do consumo e de suas emissões associadas.
O menor consumo das famílias impactadas pela redução de jornada de trabalho poderia conduzir, por exemplo, a uma queda dos preços induzindo a um aumento do consumo por parte de outras pessoas. Isso poderia superar o efeito escala, resultando em um efeito líquido de aumento das emissões associadas ao gasto individual (Antal et al., 2020). Por exemplo, se a redução da jornada de trabalho incentiva um maior número de pessoas a ir de bicicleta ao trabalho, a demanda por gasolina pode diminuir, resultando em uma queda dos preços dos combustíveis, o que em última instância poderia incentivar outras pessoas a andarem mais de carro (Sorrell, 2020). Outra possível situação poderia ser o fato de que indivíduos de renda relativamente elevada, tendo reduzida sua jornada de trabalho, poderiam utilizar seu tempo de lazer não para mudar hábitos de consumo, mas sim para intensificá-los (Nørgård, 2013; Sorrell, 2020). Nesse caso, a composição do consumo dos estratos mais ricos, a qual inclui bens altamente intensivos em carbono, como viagens aéreas, seria um vetor de pressão ambiental (Bergamin et al. 2025)
Em suma, o sentido e a magnitude dos efeitos de composição parecem estar condicionados às particularidades dos países em que as medidas são implementadas, assim como aos hábitos e padrões de consumo da população. Nesse sentido, experiências internacionais investigadas pela literatura empírica fornecem pistas, especificidades à parte, de quais fatores influenciam os resultados em termos de emissões associadas aos hábitos de consumo de trabalhadores que passaram por reduções de jornada de trabalho. Para países do Norte Global, os efeitos da redução da jornada de trabalho parecem se alterar ao longo do tempo, sendo entre 1980 e 2000 associados a uma redução de emissões e, após a virada do século, correlacionados com um aumento das emissões por meio do efeito rebote; enquanto isso, os países em desenvolvimento não apresentam resultados conclusivos (Shao & Rodriguez-Labajos, 2016).
Ao mesmo tempo, a intensidade da carga horária anual de trabalho vigente pode influenciar diretamente os efeitos da redução da jornada sobre as emissões, como mostram Shao e Shen (2017) em um estudo com 15 países da União Europeia entre 1970 e 2010. Os autores encontraram que a correlação entre redução da jornada e emissões em países com jornadas mais extensas (acima de 44 horas semanais) seria negativa, de modo que o ganho de horas livres pelos trabalhadores aumentaria a intensidade das emissões. Contudo, para países com jornadas de menor duração (abaixo de 38h semanais) – e especialmente de duração intermediária (entre 38h e 44h semanais) – uma política de redução de jornada de trabalho já estaria associada a uma queda nas emissões.
Outro fator que parece influenciar a magnitude do efeito composição é a estrutura familiar dos trabalhadores afetados pela medida de redução de jornada. Em estudo realizado nos Estados Unidos, domicílios compostos por mais de um adulto e pelo menos uma criança apresentam uma associação mais intensiva entre o tamanho da jornada de trabalho e o nível de emissões, de modo que reduções de jornada que impactam esse grupo domiciliar produzem um efeito maior de redução das emissões (Fremstad et al. 2019).
O Brasil apresenta um regime de jornada do trabalho formal intermediário, nos termos de Shao e Shen (2017) (entre 38h e 44h semanais). Ao mesmo tempo, os trabalhadores brasileiros em regime de 44h semanais e potencialmente afetados por uma redução da jornada são aqueles com menores salários, menor escolaridade, majoritariamente pessoas negras, com o rendimento das mulheres dentre as pessoas que trabalham em jornadas de 44h sendo ainda pior que o dos homens (Pateo et al., 2026). Apesar do caráter exploratório desta discussão e da necessidade de estudos mais aprofundados, as experiências internacionais com características semelhantes às do Brasil, considerando o perfil dos trabalhadores e a intensidade da jornada vigente, sugerem possíveis convergências entre a redução da jornada de trabalho e a redução das emissões via efeitos de composição.
Essas constatações, no entanto, podem ocultar um aspecto relevante da divisão sexual do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados, uma vez que, em famílias com crianças, especialmente aquelas chefiadas por mulheres, a redução da jornada poderia potencializar um efeito de redução das emissões. Nesse caso, as mulheres passariam a usar a hora disponível com o trabalho de cuidado das crianças, atividade menos intrinsecamente intensiva em carbono no Brasil, não reduzindo efetivamente sua jornada total de trabalho, que para o caso brasileiro já chega a quase 60h semanais (Saliba et al., 20261Druckman et al. 2012 apontam que atividades domésticas para o caso do Reino Unido podem ser sim intensivas em carbono, mas muito por conta da matriz energética não renovável britânica que torna o uso de água e energia elétrica, para atividades domésticas, mais intensivo em emissões e não por conta da natureza intrínseca das atividades de cuidado direto e indireto.). Portanto, nesse cenário haveria uma acomodação da redução do impacto ambiental através do aprofundamento da desigualdade social e da sobrecarga feminina, sendo relevante haver, em paralelo à medida de redução de jornada, o fortalecimento das políticas nacionais de cuidado para buscar um desfecho socialmente mais justo.
Paralelamente, os desdobramentos associados à adaptação da estrutura produtiva para ampliar a produtividade do trabalho, via tecnologias mais ou menos intensivas em carbono, é um aspecto fundamental para determinar se os efeitos ambientais potencialmente positivos de curto prazo da redução de jornada de trabalho no Brasil serão também duradouros no longo prazo. Chen et al. (2022) em análise para 36 países da OCDE e para a China, por exemplo, identificam uma curva em formato de N na correlação entre a produtividade do trabalho e as emissões de CO2: nos primeiros estágios de desenvolvimento o aumento da produtividade do trabalho eleva o volume de emissões, que a partir de um certo patamar intermediário passa a cair conforme a produtividade aumenta, para então em um terceiro nível mais elevado retornar à associação com um nível maior de emissões.
Outra perspectiva é também como essas mudanças de produtividade alteram as condições macroeconômicas que retroalimentam ou não a dinâmica de emissões. Cieplinski et al. (2021) modelam diferentes cenários para a França de medidas de redução de jornada e apontam que os resultados em termos ambientais e socioeconômicos podem ser melhor conciliados quando os ganhos de produtividade do trabalho iniciais também se refletem em um subsequente aumento da renda do trabalho por hora. Para os autores, esse cenário ideal atenua a queda da parcela dos salários na renda e consequente aumento da desigualdade funcional que uma redução de jornada, com apenas um aumento da produtividade imediatamente após a implementação da medida, provoca.
Em síntese, deve-se ter cautela com a interpretação de resultados encontrados pela literatura empírica associada a experiências internacionais, as quais não necessariamente indicam causalidade entre as medidas de redução de jornada e os impactos ambientais. Ainda assim, pode-se dizer que os perfis dos trabalhadores possivelmente afetados pela redução de jornada semanal para 40h e o fim da escala 6x1 no Brasil estão associados a experiências em que se observaram uma correlação positiva entre redução das horas trabalhadas e redução das emissões. Tal conexão pode ser explicada por uma possível mudança de hábitos gerada por um maior tempo livre, que pode induzir a alocação do tempo disponível em atividades e produtos menos intensivos em carbono, consequentemente reduzindo as emissões.
Referências bibliográficas
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