Desigualdade nas emissões de transporte aéreo: é um luxo voar no Brasil?

A rea­li­za­ção da 30ª Con­fe­rên­cia das Nações Uni­das sobre as Mudan­ças Cli­má­ti­cas (COP 30) no Bra­sil con­tri­buiu para cha­mar a aten­ção dos ato­res locais e inter­na­ci­o­nais aos desa­fi­os polí­ti­cos asso­ci­a­dos ao enfren­ta­men­to mul­ti­la­te­ral da cri­se cli­má­ti­ca. Um exem­plo foi a difi­cul­da­de de for­jar con­sen­sos em tor­no de uma eta­pa cen­tral para alcan­çar as metas cli­má­ti­cas esta­be­le­ci­das pelo Acor­do de Paris: a redu­ção drás­ti­ca do con­su­mo de com­bus­tí­veis fós­seis em esca­la glo­bal[1]. Este foi, por exem­plo, um dos pon­tos cen­trais apre­sen­ta­dos pelo rela­tó­rio Road­map – De Baku à Belém, uma ini­ci­a­ti­va con­jun­ta das pre­si­dên­ci­as do Bra­sil e do Azer­bai­jão (sede da COP 29), que pro­cu­rou suge­rir cami­nhos pos­sí­veis para via­bi­li­zar cer­ca de 1,3 tri­lhões de dóla­res para apoi­ar a des­car­bo­ni­za­ção nos paí­ses em desenvolvimento.

Esta aná­li­se foca em uma das pro­pos­tas que tem ganha­do espa­ço no deba­te inter­na­ci­o­nal como alter­na­ti­va para redu­zir o con­su­mo de com­bus­tí­veis fós­seis: a ado­ção de taxas, tri­bu­tos ou outro tipo de ins­tru­men­to econô­mi­co capaz de desin­cen­ti­var o alto impac­to ambi­en­tal cau­sa­do pelo trans­por­te aéreo. Essa pos­si­bi­li­da­de tem sido espe­ci­al­men­te abor­da­da pela Glo­bal Soli­da­rity Levi­es Task For­ce (GSLTF) lan­ça­da na COP 28 (Dubai, Dezem­bro de 2023) e coor­de­na­da por Bar­ba­dos, Fran­ça e Quê­nia. Na oca­sião da Quar­ta Con­fe­rên­cia Inter­na­ci­o­nal sobre Finan­ci­a­men­to para o Desen­vol­vi­men­to, sedi­a­da em Sevi­lha (Espa­nha, Junho de 2025), a GSLTF anun­ci­ou a ini­ci­a­ti­va Pre­mium Flyers Soli­da­rity Coa­li­ti­on (PFSC), cujo obje­ti­vo é mobi­li­zar “uma melhor con­tri­bui­ção do setor de avi­a­ção para a tran­si­ção jus­ta”, ende­re­çan­do par­ti­cu­lar­men­te os usuá­ri­os pre­mium des­te setor, isto é, pas­sa­gei­ros que uti­li­zam jatos par­ti­cu­la­res ou voam de pri­mei­ra clas­se ou clas­se exe­cu­ti­va em voos comer­ci­ais. Em rela­tó­rio, a GSLTF argu­men­ta que, além de o setor de trans­por­te aéreo cor­res­pon­der a 4% das emis­sões glo­bais de Gases de Efei­to Estu­fa (GEE) indu­zi­das pela ati­vi­da­de huma­na, há con­si­de­rá­vel desi­gual­da­de asso­ci­a­da a essas emis­sões: 1% da popu­la­ção mun­di­al seria res­pon­sá­vel por 50% das emis­sões asso­ci­a­das à avi­a­ção. Essa desi­gual­da­de na pega­da de car­bo­no, isto é, no con­su­mo indi­vi­du­al de emis­sões de GEE, é exem­pli­fi­ca­da da seguin­te for­ma: um voo de jato pri­va­do entre Lon­dres e Paris é capaz de emi­tir 6 vezes mais GEE per capi­ta do que um voo comer­ci­al que per­cor­re o mes­mo trajeto.

A cobran­ça de uma tari­fa ou taxa sobre as emis­sões do trans­por­te aéreo, em espe­ci­al aque­las asso­ci­a­das ao con­su­mo de luxo (jatos pri­va­dos, pri­mei­ra clas­se e clas­se exe­cu­ti­va), é um ins­tru­men­to capaz de ser­vir a três dimen­sões de polí­ti­ca com­ple­men­ta­res. Pri­mei­ro, ela con­sis­te em um ins­tru­men­to econô­mi­co de polí­ti­ca ambi­en­tal, isto é, impõe um pre­ço às emis­sões de car­bo­no com o obje­ti­vo de desin­cen­ti­var o com­por­ta­men­to noci­vo dos agen­tes econô­mi­cos e cor­ri­gir even­tu­ais dis­tor­ções de mer­ca­do. O resul­ta­do espe­ra­do, nes­te caso, é a miti­ga­ção das emis­sões de GEE. Vale res­sal­tar que, de acor­do com o rela­tó­rio da GSLTF, esti­ma-se que a pre­ci­fi­ca­ção do car­bo­no no setor de avi­a­ção seja bai­xa em com­pa­ra­ção a outros seto­res, o que suge­re haver espa­ço para ele­va­ções nes­te pre­ço: entre os paí­ses do G20, por exem­plo, o pre­ço médio do car­bo­no emi­ti­do pela quei­ma de que­ro­se­ne uti­li­za­do na avi­a­ção seria cer­ca de 7 vezes menor do que o da gaso­li­na e mais de 8 vezes menor do que o do diesel.

Em segun­do lugar, essa tari­fa ou taxa sobre as emis­sões do trans­por­te aéreo cons­ti­tui um ins­tru­men­to de polí­ti­ca fis­cal. Ela reme­te à pos­si­bi­li­da­de de ampli­ar a arre­ca­da­ção tri­bu­tá­ria por meio da cobran­ça de um impos­to sobre o car­bo­no emi­ti­do. Essa par­ti­cu­la­ri­da­de da tri­bu­ta­ção de car­bo­no é com­pre­en­di­da pela lite­ra­tu­ra como um “duplo divi­den­do”: ao mes­mo tem­po em que cor­ri­ge dis­tor­ções que redu­zem o impac­to ambi­en­tal, tam­bém per­mi­te o acú­mu­lo de recur­sos que podem ser uti­li­za­dos em polí­ti­cas ambi­en­tais. Como des­ta­ca­do pelo Road­map – De Baku a Belém, o prin­ci­pal desa­fio à des­car­bo­ni­za­ção dos paí­ses em desen­vol­vi­men­to está liga­do à difi­cul­da­de de aces­so aos recur­sos neces­sá­ri­os à tran­si­ção. Estes cos­tu­mam enfren­tar altos cus­tos de capi­tal, espa­ço fis­cal limi­ta­do, endi­vi­da­men­to exces­si­vo e, além dis­so, ten­dem a estar sujei­tos a con­di­ci­o­na­li­da­des res­tri­ti­vas no que se refe­re ao aces­so a fon­tes de finan­ci­a­men­to. Nes­te caso, ins­tru­men­tos fis­cais como a tri­bu­ta­ção de car­bo­no sobre o trans­por­te aéreo são mei­os pos­sí­veis para ampli­ar os recur­sos dis­po­ní­veis para a tran­si­ção. O rela­tó­rio esti­ma que impos­tos sobre a avi­a­ção glo­bal pode­ri­am arre­ca­dar até 200 bilhões de dóla­res por ano, depen­den­do do dese­nho adotado.

Por últi­mo, a cobran­ça de uma taxa sobre as emis­sões de avi­a­ção foca­da no con­su­mo de luxo tam­bém pode ser vis­ta como um ins­tru­men­to dis­tri­bu­ti­vo, na medi­da em que reco­nhe­ce dife­ren­tes res­pon­sa­bi­li­da­des e cus­tos asso­ci­a­dos às emis­sões de GEE. Para com­pre­en­der melhor este aspec­to, vale reto­mar a con­tri­bui­ção fei­ta na NPE nº 76 do Made (Rodri­gues et al., 2025), que des­ta­ca que a desi­gual­da­de na pega­da de car­bo­no das famí­li­as bra­si­lei­ras se rela­ci­o­na com a desi­gual­da­de na ren­da e no padrão de con­su­mo. Nes­te caso, encon­tra-se que as famí­li­as bra­si­lei­ras que com­põem o 1% mais rico emi­tem cer­ca de 5 vezes mais do que as que com­põem os 10% mais pobres da popu­la­ção. A NPE mos­tra, ain­da, que ao decom­por esta desi­gual­da­de seto­ri­al­men­te, um dos seto­res que mais expres­sam a dife­ren­ça entre a pega­da de car­bo­no do topo e do res­to da popu­la­ção é jus­ta­men­te aque­le que agre­ga ati­vi­da­des de trans­por­te. Nes­se caso, o con­su­mo de luxo (por exem­plo, a com­pra de pas­sa­gens aére­as inter­na­ci­o­nais) repre­sen­ta um gas­to sig­ni­fi­ca­ti­vo, con­cen­tra­do no topo da dis­tri­bui­ção e com impac­to rele­van­te no nível de emis­sões. Uma cobran­ça sobre as emis­sões do trans­por­te aéreo de luxo pode, por­tan­to, redu­zir o tama­nho da desi­gual­da­de na pega­da de car­bo­no, ao ins­ti­tuir um pre­ço adi­ci­o­nal para aque­las pes­so­as cujo con­su­mo é mais emissor.

Assim, cons­ta­ta-se que há uma cres­cen­te mobi­li­za­ção inter­na­ci­o­nal em tor­no da neces­si­da­de de incluir o setor de trans­por­te aéreo no esfor­ço de redu­ção das emis­sões de GEE. Ade­mais, essa mobi­li­za­ção, se foca­da nas emis­sões asso­ci­a­das ao trans­por­te de luxo (jatos pri­va­dos, pri­mei­ra clas­se e clas­se exe­cu­ti­va), tem poten­ci­al de com­bi­nar redu­ção das emis­sões com aumen­to da arre­ca­da­ção fis­cal e redu­ção da desi­gual­da­de asso­ci­a­da à pega­da de car­bo­no. A ques­tão cen­tral, entre­tan­to, é como esta dis­cus­são pode ser pen­sa­da a par­tir do caso brasileiro.

A pre­o­cu­pa­ção com a con­tri­bui­ção do setor de trans­por­te aéreo para as emis­sões de GEE tem apa­re­ci­do no deba­te públi­co bra­si­lei­ro recen­te.  Um exem­plo foi a pro­po­si­ção do PL 4748/24[2], que pro­põe uma tari­fa ambi­en­tal sobre usuá­ri­os de trans­por­te aéreo e ter­res­tre. A pro­pos­ta é vaga em ter­mos de valo­res da taxa, esti­pu­lan­do ape­nas três cri­té­ri­os para a inten­si­fi­ca­ção do valor da cobran­ça: o tipo de modal aéreo ou ter­res­tre, a dis­tân­cia per­cor­ri­da e as esti­ma­ti­vas de emis­sões de GEEs por quilô­me­tro per­cor­ri­do. Nes­se caso, não são expli­ci­ta­men­te con­si­de­ra­das dife­ren­ças entre pas­sa­gei­ros de luxo (que via­jam em aviões par­ti­cu­la­res e de clas­se exe­cu­ti­va) e outros tipos de passageiros.

O PL 3234/2025[3], toda­via, inclui essa pre­o­cu­pa­ção em dife­ren­ci­ar o tipo de con­su­mo, pro­pon­do a cri­a­ção de uma Con­tri­bui­ção de Res­pon­sa­bi­li­da­de Cli­má­ti­ca sobre Trans­por­te Aéreo de Luxo, cujo obje­ti­vo é finan­ci­ar polí­ti­cas de cunho ambi­en­tal. Esta pro­pos­ta pre­vê taxas sobre a pas­sa­gem de clas­se exe­cu­ti­va e pri­mei­ra clas­se em voos inter­na­ci­o­nais, além de cobran­ças sobre emis­sões resul­tan­te de via­gens com jatos par­ti­cu­la­res. Outro exem­plo, foca­do na cida­de de São Pau­lo, foi a pro­pos­ta de uma Taxa de Pre­ser­va­ção Ambi­en­tal (TPA)[4] para heli­cóp­te­ros e jati­nhos, apro­va­da em pri­mei­ro tur­no no mês de maio de 2025  na Câma­ra dos Vere­a­do­res da capi­tal pau­lis­ta. A pro­pos­ta intro­duz a cobran­ça de uma taxa para pou­sos e ater­ris­sa­gens de heli­cóp­te­ros e jati­nhos par­ti­cu­la­res modu­la­da pelo peso em tone­la­das das aero­na­ves, o qual esta­ria dire­ta­men­te asso­ci­a­do com seu poten­ci­al emis­sor. A apro­va­ção da pro­pos­ta depen­de de segun­da roda­da de vota­ção no ple­ná­rio legis­la­ti­vo muni­ci­pal e da san­ção do pre­fei­to[5].

A exis­tên­cia de pro­je­tos que pro­cu­ram ende­re­çar as emis­sões do setor de trans­por­te aéreo no Bra­sil é uma razão para que se aten­te de for­ma mais cui­da­do­sa a essa ques­tão a par­tir dos dados dis­po­ní­veis.  Pro­po­mos aqui, como pri­mei­ro pas­so, um exer­cí­cio sim­ples que per­mi­te dis­cu­tir a rela­ção entre o con­su­mo de trans­por­te aéreo no Bra­sil, as emis­sões asso­ci­a­das a esse con­su­mo e como essas emis­sões estão dis­tri­buí­das entre aque­les que ganham mais e aque­les que ganham menos. Em ter­mos meto­do­ló­gi­cos, par­te-se de pro­ce­di­men­to simi­lar ao empre­ga­do por Rodri­gues et al. (2025). A par­tir dos dados da POF 2017/2018, cal­cu­la-se a pega­da média de car­bo­no por cada déci­mo de ren­da, a qual é ana­li­sa­da sob uma pers­pec­ti­va seto­ri­al. Nes­te caso, uti­li­za-se uma estru­tu­ra seto­ri­al mais desa­gre­ga­da. São con­si­de­ra­dos 67 ao invés de 42 seto­res da Matriz Insu­mo-Pro­du­to bra­si­lei­ra para 2018, esti­ma­da por Alves-Pas­so­ni e Frei­tas (2023), o que per­mi­te um olhar espe­cí­fi­co para os coe­fi­ci­en­tes de emis­são dos tipos de trans­por­te (Alva­ren­ga Juni­or, 2024). Em par­ti­cu­lar, o setor de trans­por­te aéreo, quan­do com­pa­ti­bi­li­za­dos com a POF 2017/2018 refe­re-se a cate­go­ri­as de gas­tos como “avião”, “avião (via­gem naci­o­nal)” e “avião(viagem inter­na­ci­o­nal)”, entre outras. É impor­tan­te res­sal­tar que, por serem mui­to espe­cí­fi­cas e asso­ci­a­das a estra­tos mais altos de ren­da, essas cate­go­ri­as podem estar subre­pre­sen­ta­das na POF 2017/2018.

O pon­to de par­ti­da para a aná­li­se dos resul­ta­dos é a Figu­ra 1 abai­xo, ela mos­tra a par­ce­la do total de emis­sões que cada estra­to de ren­da domi­ci­li­ar per capi­ta emi­te a par­tir de três níveis de agre­ga­ção. O pri­mei­ro (linha tra­ce­ja­da em pre­to) repre­sen­ta o agre­ga­do das emis­sões oriun­das do con­su­mo com todos os pro­du­tos da POF com­pa­ti­li­za­dos com os 12 macro­se­to­res do Sis­te­ma de Con­tas Naci­o­nais; o segun­do (linhas sóli­das colo­ri­das) é expres­so pela desa­gre­ga­ção dos qua­tro macro­se­to­res com mai­or volu­me em tone­la­das de emis­sões de CO2Eq per capi­ta, den­tre eles o setor de Trans­por­tes, Arma­ze­na­gem e Cor­rei­os. Por fim, o ter­cei­ro (linha tra­ce­ja­da em roxo) des­ta­ca ape­nas a par­ce­la das emis­sões oriun­das do Trans­por­te Aéreo que é um dos seto­res que com­põem o macro­se­tor de Trans­por­tes, Arma­ze­na­gem e Correios.

Como se pode notar, seja olhan­do para a linha tra­ce­ja­da pre­ta, seja aten­tan­do aos qua­tro seto­res mais emis­so­res, há uma ten­dên­cia de aumen­to das emis­sões à medi­da que ele­va o nível de ren­da. Con­for­me dis­cu­ti­do em Rodri­gues et al. (2025), esse aumen­to é um fato comum entre dife­ren­tes paí­ses e pode ser expli­ca­do tan­to pelo tama­nho do con­su­mo, quan­to pelo tipo de bem con­su­mi­do. Um aspec­to rele­van­te é que todas as linhas expres­sas na Figu­ra 1 mos­tram um aumen­to sig­ni­fi­ca­ti­vo ao pas­sar do déci­mo 80–90 para o déci­mo 90–100. Se con­si­de­rar­mos a linha pre­ta tra­ce­ja­da, esse com­por­ta­men­to expli­ci­ta que há, de for­ma gene­ra­li­za­da, uma alta con­cen­tra­ção de emis­sões entre os 10% mais ricos. Outra infor­ma­ção inte­res­san­te é que esse sal­to entre os 10% mais ricos se deve prin­ci­pal­men­te ao macro­se­tor de Trans­por­tes, Arma­ze­na­gem e Cor­rei­os. No caso, os domi­cí­li­os par­te dos 10% mais ricos do Bra­sil seri­am res­pon­sá­veis por cer­ca de ¼ do total das emis­sões asso­ci­a­das ao con­su­mo no setor (em tone­la­das de CO2Eq). Em con­tras­te, os 10% mais pobres con­tri­buí­ram com menos de 5%.

O pon­to cen­tral a ser des­ta­ca­do na Figu­ra 1, entre­tan­to, é expres­so pela tra­je­tó­ria da linha tra­ce­ja­da roxa, ou seja, do setor Trans­por­te Aéreo, uma par­te desa­gre­ga­da de Trans­por­tes, Arma­ze­na­gem e Cor­rei­os. A desi­gual­da­de da pega­da de car­bo­no asso­ci­a­da às via­gens de avião se mos­tra mui­to mais sig­ni­fi­ca­ti­va do que nos casos dis­cu­ti­dos aci­ma: os 10% mais ricos são res­pon­sá­veis por 72,11% das emis­sões asso­ci­a­das a via­gens aére­as naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais. Por outro lado, as emis­sões dos 50% mais pobres no con­su­mo de trans­por­te aéreo, quan­do soma­das, não che­gam nem a 10% do total das emis­sões asso­ci­a­das a esse tipo de consumo.

A Tabe­la 1, por sua vez, expli­ci­ta como a con­cen­tra­ção das emis­sões asso­ci­a­das ao trans­por­te aéreo mos­tra­da aci­ma está asso­ci­a­da ao mai­or con­su­mo de via­gens aére­as no topo da dis­tri­bui­ção. Ela expres­sa a quan­ti­da­de de pes­so­as que com­põem cada estra­to de ren­da, o per­cen­tu­al des­sas pes­so­as que decla­rou ter tido des­pe­sas com trans­por­te aéreo na POF 2017/2018 e, por fim, o gas­to total do estra­to com trans­por­te aéreo. Os valo­res expres­sos na tabe­la tem como refe­rên­cia os pre­ços no mês de janei­ro de 2018.

Uma pri­mei­ra con­clu­são par­te do núme­ro de pes­so­as que con­su­mi­ram trans­por­te aéreo, resul­tan­te da pro­je­ção dos resul­ta­dos obti­dos na POF para popu­la­ção total, a par­tir dos pesos amos­trais. A Tabe­la 1 mos­tra que menos de 1% da popu­la­ção de cada um dos seis pri­mei­ros estra­tos de ren­da da base (0–10, 10–20, 20–30, 30–40, 40–50, 50–60) decla­rou ter tido con­su­mo de trans­por­te aéreo.  Na cama­da inter­me­diá­ria que vai do 7º (60–70) ao 9º (80–90) estra­to, esse per­cen­tu­al é, em média, um pou­co mai­or, mas, mes­mo assim, não pas­sa de 3%. Já no estra­to dos 10% mais ricos (90–100), o pano­ra­ma muda sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te: 11,45% das pes­so­as decla­ra­ram con­su­mo de trans­por­te aéreo na POF. Esse per­cen­tu­al aumen­ta na medi­da em que se desa­gre­ga este estra­to para obser­var melhor o topo da dis­tri­bui­ção (90–95, 95–99, 99–100).

Nota-se que, para o últi­mo estra­to (99–100), repre­sen­ta­ti­vo do 1% mais rico do Bra­sil, 1 em cada 5 pes­so­as tive­ram gas­tos com via­gens aére­as. Com base nos pesos da POF 2017/2018, isso sig­ni­fi­ca dizer que só no 1% mais rico, have­ria mais pes­so­as que con­so­mem trans­por­te aéreo do que entre os 50% bra­si­lei­ros mais pobres. Tem-se, por­tan­to, que o trans­por­te aéreo é um tipo de con­su­mo alta­men­te con­cen­tra­do nos estra­tos mais altos de ren­da. O tama­nho des­sa desi­gual­da­de ain­da pode ser ilus­tra­do por mais um exem­plo: o total de pes­so­as que con­su­mi­ram com via­gens aére­as entre os 10% mais ricos é mai­or que a soma de todas as pes­so­as que o fize­ram nos estra­tos inferiores .

Outra for­ma de visu­a­li­zar essa con­cen­tra­ção é dada pela aná­li­se do gas­to men­sal agre­ga­do das famí­li­as com via­gens de avião. A ter­cei­ra colu­na da Tabe­la 1 mos­tra que a soma des­se gas­to por estra­to cres­ce na medi­da que a ren­da aumen­ta, ampli­an­do-se sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te no topo: o gas­to total com via­gens de avião entre os 10% mais ricos repor­ta­do na POF foi qua­se 7 vezes mai­or do que o apre­sen­ta­do pelo estra­to logo abai­xo (80–90) e mais de 14 vezes mai­or do que o do estra­to 70–80. Ao desa­gre­gar o 10% mais rico, tem-se que a desi­gual­da­de em ter­mos de volu­me de con­su­mo é tal que somen­te os 5% mais ricos (agre­ga­ção dos estra­tos 95–99 e 99–100) gas­ta, em um mês, 1,4 vezes o que o res­tan­te da popu­la­ção soma­do gas­ta em trans­por­te aéreo[6]. Ape­sar de não ser pos­sí­vel pelos dados da POF 2017/2018 dis­cri­mi­nar se o con­su­mo da via­gem de trans­por­te foi fei­ta em clas­se exe­cu­ti­va ou con­ven­ci­o­nal, esse cená­rio de aumen­to do valor gas­to com trans­por­te apon­ta para a pos­si­bi­li­da­de não só do núme­ro de via­gens estar aumen­tan­do, mas tam­bém o padrão de con­su­mo do trans­por­te aéreo ser mais luxuoso.

Por fim, pode-se ana­li­sar a dis­tri­bui­ção em ter­mos de quan­ti­da­de total de emis­sões de GEE por estra­to. A Figu­ra 2 mos­tra que o con­su­mo de trans­por­te aéreo se mani­fes­ta, com efei­to, em pega­das de car­bo­no desi­guais. O volu­me de emis­sões men­sais asso­ci­a­das ao con­su­mo de trans­por­te aéreo pelo 10% mais ricos em 2017/2018 foi de mais de 160 mil  tone­la­das de CO2Eq, cor­res­pon­den­do a cer­ca de 28,5% das emis­sões totais do con­su­mo do estra­to em Trans­por­te, Arma­ze­na­gem e Cor­reio. A rele­vân­cia des­sa pro­por­ção é notá­vel quan­do com­pa­ra­da a estra­tos infe­ri­o­res, para os quais o trans­por­te aéreo nun­ca ultra­pas­sa 8% das emis­sões totais em Trans­por­te, Arma­ze­na­gem e Cor­reio.

Ade­mais, tama­nha repre­sen­ta­ti­vi­da­de per­mi­te refle­tir sobre meca­nis­mos de com­pen­sa­ção pos­sí­veis des­sa desi­gual­da­de. Entre os 10% mais pobres, por exem­plo, o volu­me de emis­sões men­sais para todo o setor Trans­por­te, Arma­ze­na­gem e Cor­rei­os soma cer­ca de 86 mil ton­CO2Eq, qua­se meta­de dos 160 mil atri­buí­dos ao con­su­mo de avi­a­ção dos 10% mais ricos. Na prá­ti­ca, isso sig­ni­fi­ca que 1% da popu­la­ção, cer­ca de 2,3 milhões de pes­so­as (par­te do 10% mais rico decla­ra­ram ter gas­tos com trans­por­te aéreo), emi­ti­ram, ape­nas com trans­por­te aéreo, o dobro  das emis­sões de con­su­mo de 20,5 milhões de pes­so­as (10% mais pobres) com todos os bens e ser­vi­ços asso­ci­a­dos ao setor de Trans­por­te, Arma­ze­na­gem e Correios. 

Figura 2. Emissões mensais totais de tonCO2eq por estrato de renda do setor de Transporte Armazenagem e Correio e em destaque o Transporte Aéreo

As infor­ma­ções dis­cu­ti­das aci­ma per­mi­tem avan­çar em algu­mas refle­xões em tor­no da agen­da que pro­põe a cobran­ça de taxas sobre o con­su­mo de trans­por­te aéreo no Bra­sil. Por mais que os dados não per­mi­tam iden­ti­fi­car com pre­ci­são via­gens com jatos par­ti­cu­la­res, clas­se exe­cu­ti­va ou pri­mei­ra clas­se, a sim­ples desa­gre­ga­ção do trans­por­te aéreo suge­re que os mais ricos voam mais e pagam mais por esse ser­vi­ço. Sob uma pers­pec­ti­va do impac­to ambi­en­tal, a desi­gual­da­de asso­ci­a­da ao trans­por­te aéreo mos­tra o quan­to cer­tos padrões de con­su­mo podem ser mais pre­ju­di­ci­ais que outros: para o 10% mais pobre da popu­la­ção, todas as emis­sões do con­su­mo com trans­por­te, arma­ze­na­men­to e cor­rei­os (que inclui o gas­to das famí­li­as com trans­por­te ter­res­tre, aéreo e aqua­viá­rio)[10], se soma­das, são mui­to meno­res do que aque­las asso­ci­a­das ao trans­por­te aéreo do 5% do topo.

Nes­se pon­to, vale reco­nhe­cer que uma agen­da de des­car­bo­ni­za­ção pre­o­cu­pa­da com o com­ba­te à pobre­za e a redu­ção das desi­gual­da­des, em par­ti­cu­lar para paí­ses do Sul Glo­bal como o Bra­sil, não pode abrir mão de polí­ti­cas de inclu­são econô­mi­ca e pro­du­ti­va. Isso impli­ca que even­tu­ais ele­va­ções de ren­da na base da pirâ­mi­de terão como efei­to poten­ci­al o aumen­to do con­su­mo e, por­tan­to, pode­rão ampli­ar a pega­da de car­bo­no asso­ci­a­da à base da pirâ­mi­de. O caso da con­cen­tra­ção das emis­sões de trans­por­te aéreo no topo indi­ca cami­nhos pelos quais even­tu­ais com­pen­sa­ções pos­sam ocor­rer, diluin­do poten­ci­ais impas­ses entre a dis­tri­bui­ção de ren­da (e a ampli­a­ção do con­su­mo) e o impac­to ambi­en­tal. De for­ma mais dire­ta, a con­cen­tra­ção das emis­sões de trans­por­te aéreo no topo e a par­ti­cu­lar con­tri­bui­ção do con­su­mo de luxo, como des­ta­ca­do aci­ma, podem ser alvo de polí­ti­cas asso­ci­a­das à tran­si­ção jus­ta. É nes­se sen­ti­do que a cobran­ça de taxas sobre as emis­sões asso­ci­a­das à avi­a­ção, no caso bra­si­lei­ro, pode ser­vir às três dimen­sões men­ci­o­na­das, as pers­pec­ti­vas ambi­en­tal, fis­cal e dis­tri­bu­ti­va. A alta pega­da de car­bo­no do topo, por­tan­to, pode ser redu­zi­da de for­ma a com­pen­sar even­tu­ais ele­va­ções da pega­da de car­bo­no da base.

 

Refe­rên­ci­as:

Alva­ren­ga Juni­or, M. (2024). Towards a struc­tu­ral car­bo­ni­za­ti­on of the Bra­zi­li­an eco­nomy: the impli­ca­ti­ons of recent struc­tu­ral chan­ges for the country’s gre­e­nhou­se gas emis­si­ons. Tese de dou­to­ra­do – Pro­gra­ma de Pós-Gra­du­a­ção em Eco­no­mia da Indús­tria e da Tec­no­lo­gia, Ins­ti­tu­to de Eco­no­mia, Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Rio de Janeiro.

Alves-Pas­so­ni, Pati­e­e­ne; Frei­tas, Fabio. (2023) Esti­ma­ção de matri­zes insu­mo-pro­du­to anu­ais para o Bra­sil no sis­te­ma de con­tas naci­o­nais: refe­rên­cia 2010. Pes­qui­sa e Pla­ne­ja­men­to Econô­mi­co, Bra­sí­lia, v. 53, n. 01, p. 117–165.

Rodri­gues, L.; Gomes, J. P. D. F.; Mar­ques, P. R. (2025). A desi­gual­da­de nas emis­sões de car­bo­no entre as famí­li­as bra­si­lei­ras. São Pau­lo: Cen­tro de Pes­qui­sa em Macro­e­co­no­mia das Desi­gual­da­des (Made/USP). (NPE 76)

 

 

[1] https://g1.globo.com/meio-ambiente/cop-30/noticia/2025/11/22/mapa-do-caminho-fica-fora-dos-textos-da-cop30-e-vai-ser-uma-iniciativa-da-presidencia-brasileira-diz-andre-correa-do-lago.ghtml. Aces­so em: 27 de novem­bro de 2025.

[2] Um resu­mo do pro­je­to de lei pode ser encon­tra­do em: https://www.camara.leg.br/noticias/1139405-projeto-cria-taxa-sobre-emissao-de-gases-poluidores-a-ser-cobrada-dos-usuarios-de-transporte-aereo-e-terrestre/ Aces­so em: 27 de novem­bro de 2025..

[3] Mais deta­lhes da pro­pos­ta estão dis­po­ní­veis em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=2948722&filename=Tramitacao-PL%203234/2025. Aces­so em: 15 de dezem­bro de 2025.

[4] A pro­pos­ta pode ser melhor enten­di­da em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2025/05/12/vereadores-de-sp-aprovam-taxa-de-poluicao-para-helicopteros-e-jatinhos.htm Aces­so em: 27 de novem­bro de 2025.

[5] Mais infor­ma­ções em: https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/prefeito-de-sp-vai-vetar-nova-taxa-para-voos-de-jatinho-e-helicoptero. Aces­so em: 27 de novem­bro de 2025.

[6] O 1% mais rico (estra­to 99–100) con­su­miu, em ter­mos agre­ga­dos, o mes­mo valor em trans­por­te aéreo que o estra­to 95–99, ape­sar de repre­sen­tar uma popu­la­ção total sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te menor.

[7] A POF enquan­to uma pes­qui­sa amos­tral, bus­ca cole­tar res­pos­tas de for­ma repre­sen­ta­ti­va das dife­ren­tes dimen­sões demo­grá­fi­cas da popu­la­ção bra­si­lei­ra, no entan­to a con­ver­são do núme­ro de res­pon­den­tes para a popu­la­ção no geral atra­vés da colu­na de pesos pode gerar peque­nas dife­ren­ças, de modo que o total da popu­la­ção que cada estra­to repre­sen­ta pode vari­ar com uma mar­gem rela­ti­va de 0,2 pon­tos percentuais.

[8] Faz-se aqui uma expan­são dos resul­ta­dos rela­ti­vos obti­dos pela POF para a popu­la­ção bra­si­lei­ra como um todo usan­do os pesos amos­trais das observações.

[9]Nota-se que  para o setor de Trans­por­tes Arma­ze­na­gem e Cor­reio de for­ma mais ampla há uma que­da das emis­sões totais por decil na com­pa­ra­ção do estra­to 80–90 com os seguin­tes (90–95, 95–99, 99–100), pois há uma redu­ção do núme­ro total de pes­so­as que com­põem os estra­tos de ren­da que repre­sen­tam uma desa­gre­ga­ção do últi­mo décimo.

[10] Aqui ain­da vale enfa­ti­zar, por exem­plo, que estas emis­sões asso­ci­a­das ao 10% estão prin­ci­pal­men­te asso­ci­a­das à uti­li­za­ção de trans­por­te público.

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