Quais os efeitos imediatos e futuros que podem ser esperados com a redução da jornada de trabalho brasileira?

Há uma inten­si­fi­ca­ção do deba­te sobre as rela­ções de tra­ba­lho no Bra­sil. Rei­vin­di­ca­ções por par­te dos movi­men­tos de tra­ba­lha­do­res têm pres­si­o­na­do o Exe­cu­ti­vo e o Legis­la­ti­vo pelo fim da esca­la 6x1 e por melho­ri­as nas con­di­ções de tra­ba­lho, sobre­tu­do a redu­ção de horas tra­ba­lha­das. Em abril, o gover­no fede­ral apre­sen­tou ao Con­gres­so um pro­je­to de lei que ins­ti­tui a redu­ção da jor­na­da sema­nal de 44 para 40 horas, sem pre­juí­zo sala­ri­al, e o fim da esca­la 6x1. Esse deba­te tam­bém apa­re­ce em outras ini­ci­a­ti­vas, como as PECs que pro­põem a redu­ção da jor­na­da sema­nal de 44 para 36 horas – uma delas com limi­te máxi­mo de qua­tro dias de tra­ba­lho por sema­na, outra com imple­men­ta­ção gra­du­al ao lon­go de dez anos.

Dian­te des­se cená­rio, uma ques­tão cen­tral é enten­der quais efei­tos econô­mi­cos podem ser espe­ra­dos de uma redu­ção da jor­na­da para 40 horas sema­nais, sem redu­ção sala­ri­al e com reor­ga­ni­za­ção da esca­la de tra­ba­lho. A dis­cus­são tem se orga­ni­za­do em tor­no de expec­ta­ti­vas con­fli­tan­tes. Um exem­plo é o receio de que a mudan­ça pro­du­za efei­tos nega­ti­vos sobre a eco­no­mia, com aumen­to de cus­tos, desem­pre­go e que­da na pro­du­ção (CNC, 2025; CNI, 2026; Duque, 2024). Outro é a pos­si­bi­li­da­de de ela gerar empre­gos por meio da redis­tri­bui­ção do tra­ba­lho entre mais pes­so­as (Tei­xei­ra et al., 2025). Como a alte­ra­ção envol­ve meca­nis­mos diver­sos e inter­de­pen­den­tes, nes­te tex­to bus­ca­mos ava­li­ar seus pos­sí­veis efei­tos recor­ren­do à lite­ra­tu­ra aca­dê­mi­ca e às expe­ri­ên­ci­as obser­va­das em outros paí­ses, situ­an­do o caso bra­si­lei­ro em pers­pec­ti­va comparada.

His­to­ri­ca­men­te, a expe­ri­ên­cia mais pró­xi­ma à pro­pos­ta do gover­no bra­si­lei­ro é a refor­ma por­tu­gue­sa de 1996, que tam­bém imple­men­tou uma redu­ção da jor­na­da sema­nal de 44 para 40 horas. Asai et al. (2024) encon­tram aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de de cer­ca de 4% nas fir­mas afe­ta­das, com­pen­san­do par­ce­la expres­si­va do cus­to da mudan­ça, além de uma ele­va­ção do salá­rio-hora. Segun­do estu­do recen­te do Ipea, o impac­to da redu­ção da jor­na­da no Bra­sil sobre o cus­to ope­ra­ci­o­nal das empre­sas pode­ria che­gar a 3% (Pateo et al., 2026). Assim, a expe­ri­ên­cia por­tu­gue­sa suge­re que, caso o ganho de pro­du­ti­vi­da­de obser­va­do naque­le con­tex­to tam­bém se mani­fes­tas­se no Bra­sil, ele pode­ria com­pen­sar gran­de par­te do aumen­to de cus­tos operacionais.

Com efei­to, um even­tu­al impac­to posi­ti­vo sobre a pro­du­ti­vi­da­de não seria sur­pre­en­den­te. A par­tir de cer­to pata­mar, horas adi­ci­o­nais de tra­ba­lho ten­dem a gerar retor­nos decres­cen­tes, pon­to ampla­men­te dis­cu­ti­do na lite­ra­tu­ra teó­ri­ca e empí­ri­ca (Col­lewet e Sau­er­mann, 2017; Pen­ca­vel, 2015). Em outras pala­vras, jor­na­das exces­si­va­men­te lon­gas podem redu­zir a pro­du­ti­vi­da­de média por hora trabalhada.

Além do aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de, a refor­ma por­tu­gue­sa tam­bém ele­vou o salá­rio real dos tra­ba­lha­do­res afe­ta­dos. Esse efei­to – isto é, o aumen­to do cus­to do tra­ba­lho do pon­to de vis­ta das fir­mas – está no cen­tro da inter­pre­ta­ção segun­do a qual a redu­ção da jor­na­da ten­de­ria a pre­ju­di­car o empre­go e o inves­ti­men­to. Ain­da assim, há ele­men­tos teó­ri­cos e empí­ri­cos que suge­rem que, no caso bra­si­lei­ro, even­tu­ais efei­tos nega­ti­vos sobre a deman­da por tra­ba­lho ten­de­ri­am a ser peque­nos. Quan­do as fir­mas pos­su­em ele­va­do poder no mer­ca­do de tra­ba­lho, elas podem pagar salá­ri­os infe­ri­o­res aos que pre­va­le­ce­ri­am em um ambi­en­te mais con­cor­ren­ci­al e impor jor­na­das mais lon­gas (Ger­main, 2025). Dize­mos que essas empre­sas têm poder de monopsô­nio. Ele pode sur­gir, por exem­plo, quan­do gran­de par­te dos pos­tos de tra­ba­lho está con­cen­tra­da em pou­cas empre­sas, algo que pare­ce carac­te­ri­zar ao menos par­te do mer­ca­do de tra­ba­lho bra­si­lei­ro (Fer­rei­ra, 2025). Outra evi­dên­cia que suge­re que esse mode­lo se apli­ca bem ao caso bra­si­lei­ro é Felix (2026), que indi­ca que, para alguns seto­res, os salá­ri­os obser­va­dos são pró­xi­mos da meta­de daque­les que pre­va­le­ce­ri­am sob con­cor­rên­cia ple­na. Essas evi­dên­ci­as são rele­van­tes pois, em eco­no­mi­as com ele­va­do grau de monopsô­nio, regu­la­ções que ele­vam o cus­to do tra­ba­lho ten­de­ri­am mais a com­pri­mir lucros extra­or­di­ná­ri­os – isto é, aci­ma do nível que seria obti­do em um mer­ca­do con­cor­ren­ci­al – do que a des­truir empregos.

Nes­te caso, é rele­van­te lem­brar que os efei­tos da últi­ma expe­ri­ên­cia bra­si­lei­ra de redu­ção da jor­na­da, em que a car­ga de tra­ba­lho sema­nal foi redu­zi­da de 48 para 44 horas, com a pro­mul­ga­ção da Cons­ti­tui­ção Fede­ral em 1988, foram nes­sa dire­ção. Gon­za­ga et al. (2003) mos­tram que a mudan­ça não gerou efei­tos nega­ti­vos sobre o empre­go, embo­ra tenha ele­va­do os salá­ri­os dos tra­ba­lha­do­res afetados.

Esses resul­ta­dos – efei­tos nulos ou mar­gi­nal­men­te posi­ti­vos sobre o empre­go e de aumen­to de salá­ri­os – são con­sis­ten­tes com evi­dên­ci­as de outras refor­mas. No caso fran­cês, com a redu­ção da jor­na­da sema­nal de 39 para 35 horas no iní­cio dos anos 2000, Este­vão e Sá (2008) esti­mam aumen­to da pro­ba­bi­li­da­de de tran­si­ção do desem­pre­go para o empre­go, além de ele­va­ção do salá­rio-hora. Em ter­mos agre­ga­dos, porém, con­clu­em que não hou­ve efei­to sobre o empre­go total. Para a Ale­ma­nha, Hunt (1999), ao ana­li­sar a redu­ção gra­du­al da jor­na­da de 40 para 36 horas entre 1984 e 1994, encon­tra resul­ta­dos não sig­ni­fi­ca­ti­vos para o empre­go e efei­tos posi­ti­vos sobre salários.

Há, con­tu­do, uma dimen­são que tem rece­bi­do menos aten­ção no deba­te: os efei­tos de lon­go pra­zo sobre a saú­de dos tra­ba­lha­do­res e sobre o desen­vol­vi­men­to de seus filhos. Estu­dos mos­tram que jor­na­das lon­gas ele­vam subs­tan­ci­al­men­te o ris­co de doen­ças como AVC, infar­to e depres­são (Kivimä­ki et al., 2015). A OMS e a OIT esti­mam que mais de 700 mil mor­tes por ano no mun­do decor­rem de infar­tos e doen­ças car­día­cas atri­buí­veis a jor­na­das exces­si­vas, o que faz delas o prin­ci­pal fator de ris­co ocu­pa­ci­o­nal em esca­la glo­bal (Pega et al., 2021). Em para­le­lo, Vogli­no et al. (2021) iden­ti­fi­cam evi­dên­ci­as sóli­das de efei­tos posi­ti­vos sobre a saú­de de tra­ba­lha­do­res sub­me­ti­dos a polí­ti­cas de redu­ção da jor­na­da com manu­ten­ção dos salá­ri­os. Os estu­dos repor­tam ain­da menor estres­se, melhor qua­li­da­de do sono e aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de (Vogli­no et al., 2021; von Thi­e­le Schwarz, 2008).

No Bra­sil, já há evi­dên­ci­as de que jor­na­das supe­ri­o­res a 44 horas sema­nais estão asso­ci­a­das a pior auto­a­va­li­a­ção de saú­de (de Melo Gomi­des et al., 2023). Além do impac­to sobre a pro­du­ti­vi­da­de, isso traz uma impli­ca­ção econô­mi­ca par­ti­cu­lar­men­te rele­van­te em um país com sis­te­ma públi­co uni­ver­sal de saú­de: o aumen­to do gas­to esta­tal para enfren­tar os efei­tos do ado­e­ci­men­to dos tra­ba­lha­do­res. Mais pro­ble­mas de saú­de sig­ni­fi­cam, ao mes­mo tem­po, menor pro­du­ti­vi­da­de e mai­or pres­são sobre o SUS (Bur­ton et al., 2008; de Oli­vei­ra et al., 2023; Var­gas et al., 2024).

O tem­po libe­ra­do pela redu­ção da jor­na­da tam­bém impor­ta para a gera­ção seguin­te. Há evi­dên­ci­as de que mai­or pre­sen­ça paren­tal está asso­ci­a­da a melho­res resul­ta­dos no desen­vol­vi­men­to infan­til (Resen­de et al., 2025). Ao revi­sar estu­dos com dife­ren­tes recor­tes geo­grá­fi­cos e tem­po­rais, as auto­ras iden­ti­fi­cam rela­ti­vo con­sen­so na lite­ra­tu­ra sobre os bene­fí­ci­os de mais tem­po de con­vi­vên­cia entre pais e filhos. Esses efei­tos apa­re­cem em múl­ti­plas dimen­sões, incluin­do habi­li­da­des soci­o­e­mo­ci­o­nais, desen­vol­vi­men­to cog­ni­ti­vo, desem­pe­nho esco­lar, rela­ções com os pares, habi­li­da­des de comu­ni­ca­ção e menor pro­pen­são a com­por­ta­men­tos de ris­co na ado­les­cên­cia (Dabur & Fuchs, 2025; Resen­de et al., 2025).

As con­sequên­ci­as de melho­res con­di­ções de desen­vol­vi­men­to cog­ni­ti­vo e soci­o­e­mo­ci­o­nal na infân­cia tam­bém estão bem docu­men­ta­das na lite­ra­tu­ra econô­mi­ca. Diver­sos estu­dos apon­tam o papel cen­tral des­sas habi­li­da­des na for­ma­ção de capi­tal huma­no, com efei­tos sobre ren­da indi­vi­du­al e, por meio de exter­na­li­da­des, sobre o cres­ci­men­to econô­mi­co (Andrew, 2015; Atta­na­sio et al., 2022; Gen­dron, 2004; Tomer, 2003). Assim, ao favo­re­cer melho­res con­di­ções de desen­vol­vi­men­to infan­til, a mai­or pre­sen­ça paren­tal pode con­tri­buir para a for­ma­ção dos futu­ros tra­ba­lha­do­res e gerar ganhos de pro­du­ti­vi­da­de no lon­go prazo.

Em con­jun­to, a lite­ra­tu­ra aca­dê­mi­ca e as expe­ri­ên­ci­as inter­na­ci­o­nais suge­rem que a redu­ção da jor­na­da ten­de a pro­du­zir efei­tos posi­ti­vos ou, ao menos, cus­tos macro­e­conô­mi­cos limi­ta­dos. É cla­ro que cada caso tem espe­ci­fi­ci­da­des e que ava­li­a­ções ex ante sem­pre envol­vem incer­te­za. Ain­da assim, à luz das evi­dên­ci­as dis­po­ní­veis, um cená­rio plau­sí­vel para a pro­pos­ta bra­si­lei­ra é o de efei­tos macro­e­conô­mi­cos modes­tos no cur­to pra­zo, com pos­sí­vel aumen­to do salá­rio e da pro­du­ti­vi­da­de por hora tra­ba­lha­da, mas pou­co efei­to sobre o empre­go. No lon­go pra­zo, os ganhos poten­ci­ais inclu­em meno­res cus­tos asso­ci­a­dos ao ado­e­ci­men­to, mai­or pro­du­ti­vi­da­de do tra­ba­lho e avan­ços na for­ma­ção de capi­tal huma­no decor­ren­tes de melho­res con­di­ções de desen­vol­vi­men­to infantil.

 

Os auto­res agra­de­cem às con­tri­bui­ções de Cla­ra Sali­ba e Pedro Rome­ro Mar­ques para a revi­são aten­ta do texto.

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