A dívida pública aumenta a desigualdade? Efeitos do Déficit Primário e dos Juros Nominais sobre a Participação dos Trabalhadores na Renda Agregada (2002–2019)
Esta nota investiga os impactos da dívida pública federal sobre parcela salarial da renda no Brasil, no período de 2002 a 2019. Replicando o modelo de Canale e De Siano (2024) para o Brasil, estimamos o efeito do resultado nominal e de seus dois componentes, o resultado primário e o pagamento de juros nominais, na participação dos trabalhadores na renda agregada. Essa inclusão permite avaliar qual componente – o resultado primário ou o pagamento de juros – exerce um efeito preponderante sobre o impacto que o resultado nominal tem na parcela salarial da renda. Aplicando o método de projeções locais (Jordà, 2005), os resultados indicam que um aumento do déficit nominal reduz a parcela salarial na renda, efeito majoritariamente explicado pelo componente de pagamento de juros nominais. Este opera principalmente por meio do canal do desemprego: choques positivos no pagamento de juros nominais, em proporção ao PIB, elevam a taxa de desocupação, o que comprime o poder de barganha dos trabalhadores e reduz a participação dos trabalhadores na renda agregada. Em contraste, choques que ampliam o déficit primário (ou reduzem o superávit) estão associados a uma queda do desemprego e a uma melhora na participação dos salários na renda. Concluímos que políticas de ajuste fiscal voltadas à estabilização ou à redução do déficit nominal/PIB, que, simultaneamente, visem à preservação ou à melhora da distribuição de renda, devem considerar não apenas a trajetória do resultado primário, mas também o nível e o montante do pagamento de juros nominais.
