Além do fiscal: a política monetária e o crescimento da dívida pública brasileira

O cená­rio de cres­ci­men­to da dívi­da públi­ca bra­si­lei­ra, que atin­giu 78,1% do PIB em setem­bro de 2025, tem sido fre­quen­te­men­te atri­buí­do ao dese­qui­lí­brio fis­cal, repre­sen­ta­do pelos défi­cits pri­má­ri­os1Quan­do adi­ci­o­na­mos ao resul­ta­do pri­má­rio o paga­men­to de juros nomi­nais, che­ga­mos ao indi­ca­dor de resul­ta­do nomi­nal, que ao lon­go dos 12 últi­mos meses acu­mu­lou 8,16% do PIB. A títu­lo de com­pa­ra­ção, no mes­mo perío­do, o défi­cit pri­má­rio foi de 0,27% do PIB. https://static.poder360.com.br/2025/10/estatisticas-fiscais-bc-31out2025.pdf. Na NPE 080, con­tu­do, pro­po­mos ir “além do fis­cal” e ana­li­sar o impac­to da taxa bási­ca de juros – encer­ran­do o ano em 15% a.a. – como fator cen­tral na dinâ­mi­ca do endi­vi­da­men­to públi­co nacional.

A evo­lu­ção recen­te da dívi­da públi­ca brasileira

De modo geral, a evo­lu­ção do prin­ci­pal indi­ca­dor de endi­vi­da­men­to, a Dívi­da Bru­ta do Gover­no Geral (DBGG) em rela­ção ao PIB, depen­de da dinâ­mi­ca de duas variá­veis: o nume­ra­dor (a dívi­da, impac­ta­da por juros e pelo resul­ta­do pri­má­rio) e o deno­mi­na­dor (o PIB, que refle­te o cres­ci­men­to econô­mi­co). Isto é, se a dívi­da cres­ce a uma taxa supe­ri­or à do PIB, temos um aumen­to do indi­ca­dor de endi­vi­da­men­to, e vice-versa.

Con­for­me ilus­tra­do no Grá­fi­co 1, a par­tir de uma decom­po­si­ção con­tá­bil dos con­di­ci­o­nan­tes da DBGG/PIB entre 2007 e 2025, a Nota mos­tra que a dinâ­mi­ca do endi­vi­da­men­to públi­co foi deter­mi­na­da, sobre­tu­do, pelo dife­ren­ci­al entre juros e cres­ci­men­to (r – g): os juros nomi­nais con­tri­buí­ram, em média, com uma vari­a­ção posi­ti­va de 6,12 pon­tos per­cen­tu­ais (p.p.) da DBGG/PIB ao ano, enquan­to o cres­ci­men­to econô­mi­co con­tri­buiu com uma redu­ção de 5,24 p.p. Olhan­do para esse efei­to líqui­do ao lon­go dos anos, no Grá­fi­co 2, per­ce­be-se que a dire­ção do resul­ta­do de “r‑g” é qua­se deter­mi­nan­te da tra­je­tó­ria da vari­a­ção da DBGG/PIB.

Gráfico 1 - Condicionantes da DBGG/PIB (2007 - Jun/2025)

Gráfico 2 - Condicionantes Agregados da DBGG/PIB (2007 - Jun/2025)

A taxa de juros e o supe­rá­vit pri­má­rio na evo­lu­ção da dívi­da públi­ca brasileira

Embo­ra elu­ci­da­ti­va para enten­der a evo­lu­ção pas­sa­da, a decom­po­si­ção con­tá­bil ante­ri­or não expli­ci­ta os canais teó­ri­cos de trans­mis­são pelos quais esses ele­men­tos — juros, emis­sões líqui­das2Embo­ra sejam com­pos­tas, em par­te, pelo resul­ta­do pri­má­rio, as emis­sões líqui­das tam­bém são expli­ca­das pelos títu­los uti­li­za­dos na rea­li­za­ção de ope­ra­ções com­pro­mis­sa­das por par­te do Ban­co Cen­tral e pela polí­ti­ca de ges­tão da liqui­dez da dívi­da públi­ca pelo Tesou­ro Naci­o­nal. Para mai­o­res deta­lhes, con­sul­tar a seção 2 da Nota., cres­ci­men­to econô­mi­co e dívi­da — se rela­ci­o­nam. Assim, a Nota tam­bém inclui um mode­lo teó­ri­co simu­la­do, cali­bra­do com base em dados atu­ais da eco­no­mia bra­si­lei­ra, para ilus­trar como dife­ren­tes cená­ri­os de juros e de resul­ta­do pri­má­rio afe­tam a tra­je­tó­ria da dívi­da em rela­ção ao PIB.

Ao lon­go das últi­mas déca­das, o Bra­sil tem sido mar­ca­do por taxas de juros ele­va­das em rela­ção aos pares inter­na­ci­o­nais3Os moti­vos para tal são com­ple­xos, envol­ven­do aspec­tos estru­tu­rais, como a rele­vân­cia das ope­ra­ções com­pro­mis­sa­das e dos títu­los pós-fixa­dos atre­la­dos à Selic (LFTs). Não é, con­tu­do, obje­ti­vo da Nota ou des­te Blog dis­cu­tir tais moti­vos, fican­do para estu­dos pos­te­ri­o­res.. Uma aná­li­se pos­sí­vel com o mode­lo é jus­ta­men­te o efei­to da taxa de juros sobre o endi­vi­da­men­to. Para simu­lar o efei­to de uma mudan­ça estru­tu­ral no nível de juros, com­pa­ra­mos a tra­je­tó­ria macro­e­conô­mi­ca da eco­no­mia com uma taxa de juros neu­tra (que não ace­le­ra nem desa­ce­le­ra a eco­no­mia) de 9%, tal como esti­ma­da para o caso bra­si­lei­ro pelo Ban­co Cen­tral, com o cená­rio em que a taxa neu­tra fos­se de 7%.

Gráfico 3 - Evolução da dívida pública com taxas de juros neutras distintas

Com os juros neu­tros a 9% a.a., mes­mo com a gera­ção de supe­rá­vits pri­má­ri­os sig­ni­fi­ca­ti­vos e cres­cen­tes (atin­gin­do 3% do PIB ao final da simu­la­ção), a dívi­da públi­ca man­tém tra­je­tó­ria ascen­den­te. O dife­ren­ci­al entre juros e cres­ci­men­to (r > g) gera uma pres­são estru­tu­ral e con­tí­nua que o ajus­te fis­cal, por si só, não con­se­gue con­ter. Já com os juros neu­tros a 7% a.a. e um esfor­ço fis­cal seme­lhan­te (e até um pou­co menor, em média), a dívi­da atin­ge um pico e se esta­bi­li­za. Ou seja, mes­mo com esfor­ço fis­cal sig­ni­fi­ca­ti­vo, a redu­ção da taxa de juros é fun­da­men­tal na esta­bi­li­za­ção da dívida..

Par­tin­do do con­tex­to ante­ri­or, pode­ria-se argu­men­tar que ajus­tes fis­cais ain­da mais extre­mos seri­am a solu­ção para con­ter o endi­vi­da­men­to. Assim, o segun­do exer­cí­cio rea­li­za­do focou em dife­ren­tes cená­ri­os de ajus­te fis­cal. Em ambos, con­si­de­ra­ram-se supe­rá­vits con­se­cu­ti­vos ao lon­go dos anos. O pri­mei­ro cená­rio, con­tu­do, con­si­de­ra um ajus­te mode­ra­do – supe­rá­vit pode che­gar a 3% do PIB –, e o segun­do, um ajus­te extre­mo – até 7% do PIB.

De acor­do com o Grá­fi­co 4, ambos os cená­ri­os per­mi­tem a esta­bi­li­za­ção da dívi­da públi­ca. Embo­ra o Cená­rio 2 leve a um nível final de endi­vi­da­men­to ligei­ra­men­te menor (redu­ção de 3,45 p.p. na dívida/PIB), isso ocor­re às cus­tas de um cres­ci­men­to econô­mi­co acu­mu­la­do menor (per­da de 4,8 p.p. no PIB real) e de uma vola­ti­li­da­de macro­e­conô­mi­ca sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te mai­or. Des­sa for­ma, o cami­nho da aus­te­ri­da­de para com­pen­sar juros altos sacri­fi­ca jus­ta­men­te o “deno­mi­na­dor” da equa­ção – o cres­ci­men­to –, essen­ci­al para uma solu­ção duradoura.

Gráfico 4 - Comparação da evolução da dívida pública entre os Cenários 1 e 2

Con­clu­são

A par­tir do expos­to, con­clui-se que a esta­bi­li­za­ção da dívi­da públi­ca bra­si­lei­ra em um con­tex­to de esta­bi­li­da­de econô­mi­ca soci­al depen­de cru­ci­al­men­te da cons­tru­ção de um ambi­en­te macro­e­conô­mi­co de juros meno­res e de cres­ci­men­to robus­to (r < g) e não pode ser alcan­ça­da ape­nas por meio de ajus­tes fiscais.

Igno­rar o lado mone­tá­rio na dinâ­mi­ca  da dívi­da públi­ca pro­duz um diag­nós­ti­co sim­plis­ta da ques­tão. Rom­per esse ciclo exi­ge um deba­te que vá além do fis­cal e enca­re a redu­ção do pata­mar de juros como um pilar cen­tral para a efe­ti­va sus­ten­ta­bi­li­da­de das con­tas públi­cas brasileiras. 

Para uma aná­li­se deta­lha­da da meto­do­lo­gia, dos dados e das simu­la­ções, suge­ri­mos a lei­tu­ra na ínte­gra da NPE 080.

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