Perda de natureza e vulnerabilidade externa: a degradação ambiental como um problema macroeconômico
Quando se fala em risco macroeconômico no Brasil, o debate costuma gravitar em torno de variáveis conhecidas: a trajetória fiscal, o diferencial de juros, o ciclo de commodities, a credibilidade da política monetária. A degradação ambiental, quando aparece, costuma ser vista como uma questão setorial e localizada, com pouca influência sobre a dinâmica macroeconômica do país. Apesar de ser reconhecido como um problema associado às práticas agropecuárias, à regularização fundiária e à política ambiental, raramente se reconhece que ela pode afetar o balanço de pagamentos, a taxa de câmbio e as condições de financiamento externo do país.
Uma pesquisa conduzida pelo Made em parceria com a Universidade de Leeds e o CETEx (Centre for Economic Transition Expertise), da London School of Economics, propõe justamente ressaltar essa perspectiva alternativa. O foco é investigar como a perda de serviços ecossistêmicos — regulação hídrica, fertilidade do solo, polinização, regulação climática — pode gerar pressões concretas sobre as contas externas de economias emergentes. O relatório, que consolida resultados de dois estudos diferentes, um focado em Brasil e outro olhando para tendências mais amplas em 84 países em desenvolvimento, pode ser acessado aqui.
No caso brasileiro, o trabalho combina entrevistas semiestruturadas com especialistas em governança ambiental, finanças e política macroeconômica com um exercício empírico de mapeamento setorial. A partir de dados de dependência setorial de serviços ecossistêmicos – isto é, se determinada atividade tem dependência pequena, moderada, alta, ou muito alta em relação a diferentes serviços fornecidos pela natureza (e.g. qualidade de solo, polinização, fluxo de aguas), harmonizados com matrizes insumo-produto brasileiras, os autores constroem medidas de dependência direta e indireta (via cadeias de suprimento) para cada setor, e cruzam essas medidas com a estrutura de comércio e investimento.
O problema em questão é simples. Uma parcela significativa das receitas de exportação brasileiras depende de setores cuja produção está diretamente ligada à preservação de serviços ecossistêmicos. A agricultura, por exemplo, responde por quase 17% das exportações brasileiras. Somando-se extração de petróleo e gás e produtos de origem animal, chega-se a um conjunto de atividades que responde por cerca de 40% das exportações e que possui alta ou altíssima dependência de serviços ecossistêmicos. Quando esses serviços se degradam, as consequências vão além do impacto ambiental: há queda nas exportações, e, por extensão, uma pressão sobre o câmbio e as condições de financiamento externo.
A vulnerabilidade descrita acima, porém, não se limita às exportações. O estudo identifica, além disso, três canais de transmissão via balanço de pagamentos. O primeiro é por meio da conta corrente. Além do impacto já discutido sobre as exportações, a degradação de serviços ecossistêmicos pode aumentar a dependência de importações se a produtividade agrícola doméstica cair, e encarecê-las, via depreciação cambial e aumento de custos de logística, por exemplo.
O segundo é por meio da conta financeira. Uma parcela relevante do investimento estrangeiro direto (IED) no Brasil se concentra em setores muito expostos a serviços ecossistêmicos. Segundo o estudo, cerca de 40% dos fluxos de IED que chegam ao país vai para setores com dependência elevada de pelo menos um serviço ecossistêmico. Mineração e geração de eletricidade são dois setores particularmente vulneráveis e respondem por quase 20% da renda de IED. Nestes casos, quando a degradação ambiental eleva o risco operacional e regulatório, o financiamento externo pode se reduzir justamente quando as receitas de exportação já estão sob pressão.
O terceiro é por meio de um mecanismo de retroalimentação negativo: a pressão sobre o balanço de pagamentos pode incentivar a expansão de atividades extrativas e degradantes como forma de gerar divisas no curto prazo, agravando as condições ecológicas e perpetuando o ciclo de vulnerabilidade.

As entrevistas realizadas indicaram, por sua vez, que os riscos mais relevantes para a posição macroeconômica brasileira são a perda de cobertura florestal; o enfraquecimento da regulação de precipitação; o estresse hídrico; e a degradação do solo. Esses riscos atuam como uma erosão gradual de produtividade, alterando padrões de precipitação, aumentando a frequência de secas, incêndios e inundações, e tornando os ciclos sazonais menos previsíveis.
Um aspecto particularmente relevante, enfatizado pelos entrevistados, é que o desmatamento da Amazônia sequer se justificaria a partir de uma troca “mais terra = mais exportações”. Como a floresta é central para a regulação hidrológica, sua perda pode comprometer padrões de chuva e produtividade agrícola a ponto de reduzir, e não aumentar, a capacidade exportadora.
A segunda parte do estudo amplia a análise para um painel de 84 economias em desenvolvimento, incluindo a América Latina. Combina-se matrizes de insumo-produto para todos esses países (utilizando a base GLORIA – Global Resource Input–Output Assessment) com os níveis de dependência do ENCORE.

O mapeamento revela que a dependência moderada de serviços ecossistêmicos é generalizada na América Latina: mesmo o país menos exposto tem 46,5% de seu produto em atividades ao menos moderadamente dependentes. Mas a dependência alta e altíssima se concentra nas economias intensivas em uso da terra e produção de commodities. Paraguai, Equador, Honduras e El Salvador têm mais de 29% de seu produto em atividades com dependência muito alta.
Olhando para países do Sul Global de forma geral, níveis moderados de dependência são comuns, sobretudo no Oriente Médio, Norte da África e Sul da Ásia. Para alta dependência, a distribuição se concentra sobretudo na África Subsaariana e no Sul e Sudeste Asiático, em países como Etiópia (63%), Malawi (60%), Miamar (54%) e Comboja (51%). Conjuntamente, o exercício sugere que o grau de dependência mais extremo se manifesta em economias cuja estrutura produtiva se encontra fortemente associada à agricultura, silvicultura e pesca.
O componente econométrico do estudo testa se a degradação ecológica está associada a variações extremas na taxa de câmbio, usando regressões quantílicas em painel com depreciação trimestral como variável dependente. O resultado mais consistente aparece nas regressões de volatilidade cambial com a amostra completa: degradação ambiental acumulada1Aproximada pelo índice de biocapacidade que reune informações sobre área biologicamente disponível para a provisão de recursos renováveis necessários à vida humana e a capacidade de absorver resíduos, sobretudo CO2. está associada a oscilações cambiais maiores2Por outro lado, os resultados são mais fracos quando a variável dependente é a depreciação com sinal (e não a magnitude). A dificuldade em realizar estimativas econometricas dessa relação pode estar relacionado a medida de exposição estrutural (ENCORE + insumo-produto) ser praticamente invariante no tempo, e a biocapacidade, embora varie, é um indicador de evolução lenta tentando explicar uma variável de altíssima frequência sujeita a muitos outros determinantes. Além disso, os efeitos da degradação ambiental podem ser não lineares e depender do estado da economia — acumulando-se silenciosamente até se manifestarem por meio de perturbações, limiares e efeitos em cascata..
A mensagem central do estudo é que a proteção de serviços ecossistêmicos não deve ser apenas considerada no âmbito da política ambiental, mas componente de uma estratégia mais ampla de garantia da estabilidade macroeconômica. Seguem-se disso recomendações para diferentes atores institucionais.
Para bancos centrais e supervisores financeiros, a recomendação é incorporar choques de oferta ligados à natureza nas projeções de inflação e na avaliação de risco cambial, realizar testes de estresse do balanço de pagamentos com cenários ambientais, e reforçar a supervisão de riscos cambiais em setores com alta exposição ecossistêmica.
Para autoridades fiscais, a recomendação inclui ativar cláusulas de escape para desastres nas regras fiscais (evitando aperto pró-cíclico após choques que atingem exportações, importações e financiamento ao mesmo tempo), tratar o controle do desmatamento e a proteção de ecossistemas como gasto de estabilidade macroeconômica, e redirecionar incentivos que hoje financiam atividades que degradam o ecossistema.
No plano da coordenação intergovernamental, propõe-se criar uma função compartilhada de alerta que combine indicadores ambientais, de exposição externa e de estresse de mercado, além de coordenar uma estratégia de transformação estrutural que aumente a resiliência frente a choques naturais.
Para instituições financeiras internacionais, a sugestão é tratar riscos de natureza como macroeconomicamente relevantes e desenvolver instrumentos de liquidez contingente para choques ecológicos.
Referências bibliográficas
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Lo, K., Miller, E., Dworatzek, P., Basnet, N., Silva, J., Van Berkum, J. L., Halldórsdóttir, R. B., & Dyck, M. D. R. (2025). National Ecological Footprint and Biocapacity Accounts, 2025 edition (Version 1.0). Footprint Data Foundation. https://footprint.info.yorku.ca/data/
