Desigualdade de raça e gênero e impactos distributivos dos gastos públicos com saúde e educação no Brasil
Esta nota contribui para o debate sobre o papel redistributivo da política fiscal no Brasil a partir da análise da incidência dos chamados benefícios in-kind, isto é, os gastos públicos com saúde e educação na renda das famílias. Com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017–2018, nos dados administrativos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) e nas Contas SHA (System Health Accounts) organizadas conjuntamente pelo IPEA, Fiocruz e IBGE, o estudo mostra como os gastos públicos com saúde e educação estão distribuídos entre os estratos de renda, considerando quatro grupos sociodemográficos: homens negros, mulheres negras, homens brancos e mulheres brancas. Com isso, torna-se possível calcular o Índice L de Theil, que permite identificar a contribuição que a diferenciação entre grupos (com base em critérios de gênero e raça) tem sobre a desigualdade de renda observada.
Os resultados mostram, em primeiro lugar, que gastos públicos com saúde e educação têm impacto progressivo sobre a distribuição de renda, ou seja, diminuem sua relevância à medida que se chega no topo da pirâmide. Para os 10% mais pobres do Brasil, esses gastos correspondem à metade da renda das famílias, sendo a renda entendida como a soma dos benefícios públicos e a renda monetária das famílias. Para os 50% mais pobres, tais gastos somam pelo menos um quarto da renda. Ao olhar para os quatro grupos demográficos separadamente, há um padrão similar de incidência destes gastos públicos: eles são progressivos para famílias chefiadas por homens e mulheres, independentemente da raça. Todavia, quando se olha para a renda média de cada grupo, as despesas públicas com saúde e educação são relativamente maiores nas famílias chefiadas por mulheres negras e, em seguida, por homens negros. Finalmente, a decomposição da desigualdade via Índice L de Theil indica que o componente intra grupos é significativamente mais expressivo do que o entre grupos na explicação da desigualdade de renda. Isso significa que a diferenciação de gênero e, principalmente, de raça é menos relevante para o resultado do Índice L de Theil do que a concentração de renda interna a cada grupo. O exercício mostra que os gastos com saúde e educação públicas reduzem a desigualdade medida pelo Índice L de Theil (este cai de 0,62 para 0,38), o que afeta ambos os componentes entre grupos, que é atribuído às diferenciações de raça e gênero (este cai de 0,07 para 0,05), e intra grupos, que é atribuído às desigualdade dentro dos grupos (este cai de 0,55 para 0,33).
Conclui-se que a incidência dos benefícios in-kind no Brasil sobre a distribuição de renda por raça e gênero estão fortemente condicionados pela concentração da população negra nos estratos mais baixos de renda, uma particularidade nacional. As provisões do Estado em saúde e educação beneficiam relativamente mais essa população porque há uma distribuição desigual de renda e não porque focalizam estes grupos. Como se observa a partir do gasto privado em saúde, a oferta pública desses serviços se torna menos relevante à medida em que se avança para o topo da distribuição, indicando restrições à universalização das políticas de saúde e de educação pelo Estado brasileiro e sugerindo a dominância de um modelo privado associado ao topo. A provisão pública, portanto, tem espaço para atuar de forma mais direta na redução do hiato distributivo entre brancos e negros e homens e mulheres.
