Os impactos da distribuição de renda na relação entre o investimento público e privado
O PIB em 2023 cresceu 2,9%, bem acima das expectativas. No entanto, o investimento apresentou uma trajetória de queda de ‑1,1% no acumulado de quatro trimestres, em relação aos acumulados nos quatro trimestres imediatamente anteriores. Isso significa que houve uma redução do investimento em proporção ao PIB. Mas, qual será o comportamento do investimento nos próximos anos? O que se espera que ocorrerá com o investimento privado, caso o público planejado pelo governo Lula III se efetive? Nesta Nota discutimos a relação entre os gastos do governo, em particular o investimento público, e o investimento privado. Além disso, exploramos, a partir de um exercício econométrico, como muda essa relação a depender dos diferentes níveis de desigualdade de renda. Com base na literatura empírica, é possível esperar uma relação de complementaridade dos investimentos público e privado para os próximos anos. Embora não se possa afirmar com precisão como se comportarão as decisões dos investidores, as estimativas mais recentes para a economia brasileira sugerem um efeito crowding-in nos investimentos privados. Utilizando um modelo Threshold Vector Autoregressive (TVAR) para o Brasil no período 1996–2022, descobrimos que um aumento de 10% no investimento público leva a um aumento de 3,4% nos investimentos privados após quatro trimestres em condições de menor desigualdade de renda. Em contraste, a resposta do investimento privado ao investimento público em cenários de maior desigualdade de renda não é estatisticamente significante. As nossas conclusões reforçam o potencial de reduções na desigualdade de renda para melhorar as condições macroeconômicas. É, portanto, importante garantir que o investimento público planejado pelo governo, de fato, se efetive e que junto a ele ocorram políticas de redução da desigualdade. Esse desafio é grande, contudo, tendo em vista que a nova regra fiscal – Regime Fiscal Sustentável – coloca o investimento público disputando espaço no orçamento, junto com demais políticas com potencial distributivo (como bolsa família e outros benefícios sociais).
