Curva de Phillips nos trópicos: um obituário

This par­rot is no more! It has cea­sed to be! It’s expi­red and gone to meet its maker! This is a late par­rot! It’s a stiff! Bereft of life, it rests in pea­ce! If you hadn’t nai­led it to the per­ch, it would be pushing up the dai­si­es! It’s rung down the cur­tain and joi­ned the choir invi­si­ble. This is an ex-par­rot!” (Monty Python, The Par­rot Sketch)

 

Em depoi­men­to ao Comi­tê do Sena­do dos EUA em 2019, Jero­me Powell, pre­si­den­te do Fede­ral Reser­ve, o Ban­co Cen­tral ame­ri­ca­no, afir­mou: “a rela­ção entre a oci­o­si­da­de na eco­no­mia e a infla­ção era for­te há 50 anos… e isso desa­pa­re­ceu“1“The rela­ti­onship betwe­en slack in the eco­nomy and infla­ti­on was a strong one 50 years ago…and that has gone away”.. O ceti­cis­mo expres­so pela auto­ri­da­de mone­tá­ria ame­ri­ca­na nes­ta pas­sa­gem não é infun­da­do. No cer­ne da macro­e­co­no­mia moder­na resi­de a Cur­va de Phil­lips, uma regu­la­ri­da­de teó­ri­ca e empí­ri­ca que, por déca­das, ser­viu como guia fun­da­men­tal para a con­du­ção da polí­ti­ca mone­tá­ria ao redor do mundo. 

A Cur­va de Phil­lips des­cre­ve uma rela­ção inver­sa entre a taxa de desem­pre­go e a taxa de infla­ção. Quan­do o desem­pre­go está bai­xo, o mer­ca­do de tra­ba­lho fica “aque­ci­do”. Para atrair e reter tra­ba­lha­do­res, as empre­sas pre­ci­sam ofe­re­cer salá­ri­os mais altos. Esses cus­tos mai­o­res seri­am em algum grau repas­sa­dos aos pre­ços dos pro­du­tos, geran­do infla­ção. No entan­to, o que antes era qua­se uma lei da eco­no­mia pare­ce ter per­di­do sua for­ça recen­te­men­te, levan­do os eco­no­mis­tas a deba­te­rem as pos­sí­veis cau­sas do “acha­ta­men­to” da curva.

O eco­no­mis­ta A.W. Phil­lips deu seu nome à Cur­va de Phil­lips após estu­dar o desem­pre­go e os salá­ri­os no Rei­no Uni­do entre 1861 e 1957. Sua aná­li­se reve­lou uma rela­ção inver­sa entre os níveis de desem­pre­go e a infla­ção sala­ri­al. Após seu arti­go semi­nal de 1958, essa rela­ção foi ampli­a­da para abran­ger a infla­ção de pre­ços de for­ma mais geral. Esta ver­são mais sim­ples do mode­lo foi desa­fi­a­da nos anos 1970 por Mil­ton Fri­ed­man e Edmund Phelps, que intro­du­zi­ram o papel das expec­ta­ti­vas. Eles argu­men­ta­ram que não have­ria um com­pro­mis­so per­ma­nen­te entre desem­pre­go (ou o hia­to do pro­du­to em algu­mas ver­sões) e infla­ção, pois, no lon­go pra­zo, os agen­tes ajus­ta­ri­am suas expec­ta­ti­vas e o desem­pre­go retor­na­ria à sua taxa natu­ral, inde­pen­den­te­men­te do nível de infla­ção. Des­de então, a Cur­va de Phil­lips evo­luiu para sua for­ma moder­na, incor­po­ran­do a inér­cia e as pre­vi­sões dos agen­tes, mas man­ten­do a sen­si­bi­li­da­de da infla­ção ao hia­to do pro­du­to como seu pilar central.

O fenô­me­no con­tem­po­râ­neo do acha­ta­men­to da cur­va, con­tu­do, suge­re que o coe­fi­ci­en­te que mede essa sen­si­bi­li­da­de redu­ziu-se dras­ti­ca­men­te (i. e., a cur­va tor­nou-se mais hori­zon­tal de modo que vari­a­ções no desem­pre­go têm impac­to menor ou nulo sobre a infla­ção)2ENGEMANN, K. M. What Is the Phil­lips Cur­ve (and Why Has It Flat­te­ned)?. Fede­ral Reser­ve Bank of St. Louis, [s. l.], 2020.
OCCHINO, F. The Flat­te­ning of the Phil­lips Cur­ve: Policy Impli­ca­ti­ons Depend on the Cau­se. Eco­no­mic Com­men­tary (Fede­ral Reser­ve Bank of Cle­ve­land), [s. l.], p. 1–7, 2019.
. Entre os argu­men­tos levan­ta­dos pela lite­ra­tu­ra econô­mi­ca inter­na­ci­o­nal, que se refe­re majo­ri­ta­ri­a­men­te ao caso dos paí­ses desen­vol­vi­dos, para expli­car por que a infla­ção parou de res­pon­der subs­tan­ci­al­men­te às vari­a­ções do desem­pre­go, está a “anco­ra­gem das expec­ta­ti­vas de infla­ção”. Sob regi­mes de metas de infla­ção con­so­li­da­dos, a cre­di­bi­li­da­de dos ban­cos cen­trais atua como uma ânco­ra para as expec­ta­ti­vas dos toma­do­res de deci­são. Se os agen­tes econô­mi­cos acre­di­tam fir­me­men­te que a auto­ri­da­de mone­tá­ria agi­rá para tra­zer a infla­ção de vol­ta à meta em um hori­zon­te pre­vi­sí­vel, eles ten­dem a igno­rar cho­ques tem­po­rá­ri­os no mer­ca­do de tra­ba­lho ao fixar pre­ços e salá­ri­os. Essa con­fi­an­ça tor­na a dinâ­mi­ca infla­ci­o­ná­ria menos depen­den­te das flu­tu­a­ções cícli­cas da eco­no­mia no cur­to pra­zo e mais vin­cu­la­da à repu­ta­ção da ins­ti­tui­ção monetária.

Para­le­la­men­te, há tam­bém o argu­men­to em tor­no das “trans­for­ma­ções tec­no­ló­gi­cas e a auto­ma­ção” que recon­fi­gu­ra­ram estru­tu­ral­men­te o mer­ca­do de tra­ba­lho nos últi­mos anos3CONCEIÇÃO, A. The Infla­ti­on Mys­tery: Who mur­de­red The Phil­lips’ Cur­ve? SSRN Elec­tro­nic Jour­nal, [s. l.], 2024. Dis­po­ní­vel em: https://www.ssrn.com/abstract=4771371. Aces­so em: 10 nov. 2025.
RATNER, D.; SIM, J. Who Kil­led the Phil­lips Cur­ve? A Mur­der Mys­tery. Finan­ce and Eco­no­mics Dis­cus­si­on Seri­es, [s. l.], v. 2022.0, n. 28, p. 1–36, 2022.
ROLIM, L.; CARVALHO, L.; LANG, D. Mone­tary policy rules and the ine­qua­lity-aug­men­ted Phil­lips cur­ve. Eco­no­mic Model­ling, [s. l.], v. 139, p. 106780, 2024.
. A ascen­são da inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al e da robo­ti­za­ção não ape­nas des­lo­cou pos­tos de tra­ba­lho tra­di­ci­o­nais, mas alte­rou a elas­ti­ci­da­de da ofer­ta de tra­ba­lho. Em um mun­do onde tare­fas roti­nei­ras podem ser pron­ta­men­te auto­ma­ti­za­das e onde a eco­no­mia de pla­ta­for­ma (gig eco­nomy) frag­men­tou a orga­ni­za­ção sin­di­cal, o poder de bar­ga­nha do tra­ba­lha­dor dimi­nuiu subs­tan­ci­al­men­te. Mes­mo em cená­ri­os de ple­no empre­go, a ame­a­ça da subs­ti­tui­ção tec­no­ló­gi­ca impe­de que o aque­ci­men­to econô­mi­co se tra­du­za de ime­di­a­to em pres­sões salariais.

Outro aspec­to fre­quen­te­men­te res­sal­ta­do é a frag­men­ta­ção inter­na­ci­o­nal das cadei­as pro­du­ti­vas. As empre­sas naci­o­nais pas­sa­ram a uti­li­zar um volu­me cres­cen­te de bens inter­me­diá­ri­os impor­ta­dos, o que redu­ziu a sen­si­bi­li­da­de da infla­ção às con­di­ções econô­mi­cas domés­ti­cas, incluin­do o hia­to do pro­du­to. Con­se­quen­te­men­te, uma par­ce­la cada vez mai­or dos cus­tos das empre­sas dei­xou de ser deter­mi­na­da domes­ti­ca­men­te (salá­ri­os) e pas­sou a depen­der de pre­ços defi­ni­dos no mer­ca­do exter­no4ARI, A.; GARCIA-MACIA, D.; MISHRA, S. Has the Phil­lips Cur­ve Beco­me Ste­e­per?. IMF Wor­king Paper, [s. l.], v. WP/23/100, 2023..

E como esse deba­te se apli­ca ao caso bra­si­lei­ro? Segun­do os dados mais recen­tes do IBGE, o país atin­giu o menor nível de desem­pre­go da série his­tó­ri­ca, abai­xo de 6%, e ter­mi­nou o ano de 2025 com a infla­ção den­tro do inter­va­lo da meta, indi­can­do que o acha­ta­men­to da cur­va tam­bém pare­ce ser uma rea­li­da­de aqui nos tró­pi­cos. Em estu­do recen­te publi­ca­do pelo Made/­FEA-USP (NPE nº 74), apon­ta­mos para uma ausên­cia de rela­ção entre o nível de ati­vi­da­de econô­mi­ca, medi­do pelo hia­to do pro­du­to, e a infla­ção no Bra­sil para qua­se todos os gru­pos que com­põem o Índi­ce de Pre­ços ao Con­su­mi­dor Amplo (IPCA)5Exce­ção somen­te para os gru­pos de “ves­tuá­rio” e “des­pe­sas pes­so­ais”. Para mai­o­res deta­lhes, aces­se a NPE nº 74: https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/o‑aquecimento-da-economia-explica-a-elevacao-dos-precos-uma-analise-desagregada-da-curva-de-phillips-para-a-inflacao-por-grupos-do-ipca/ . Par­tin­do do mode­lo desen­vol­vi­do na refe­ri­da NPE para a Cur­va de Phil­lips apli­ca­da ao IPCA Geral, cal­cu­la­mos a res­pos­ta da infla­ção ao lon­go do tem­po a vari­a­ções no hia­to do pro­du­to. O resul­ta­do é apre­sen­ta­do na figu­ra abaixo.

O resul­ta­do espe­ra­do, caso vales­se a Cur­va de Phil­lips, seria uma sequên­cia de coe­fi­ci­en­tes estri­ta­men­te posi­ti­vos ao lon­go de todo o perío­do ana­li­sa­do na figu­ra aci­ma. Con­tu­do, é pos­sí­vel obser­var que a res­pos­ta da infla­ção ao aque­ci­men­to da eco­no­mia osci­la em tor­no de uma ten­dên­cia decres­cen­te ao lon­go do tem­po e, des­de 2020 até os dias atu­ais, vari­a­ções na deman­da agre­ga­da se tor­nam esta­tis­ti­ca­men­te irre­le­van­tes (uma vez que o valor zero está con­ti­do na mar­gem de erro da esti­ma­ti­va) para se expli­car a dinâ­mi­ca infla­ci­o­ná­ria no Bra­sil. Embo­ra o acha­ta­men­to da Cur­va de Phil­lips tam­bém pare­ça se con­fir­mar no Bra­sil, as nuan­ces ins­ti­tu­ci­o­nais reve­lam rea­li­da­des dis­tin­tas em rela­ção ao caso dos paí­ses desenvolvidos.

Dife­ren­te­men­te dos paí­ses do nor­te glo­bal, o Bra­sil con­vi­ve com uma memó­ria infla­ci­o­ná­ria per­sis­ten­te e um ele­va­do grau de inde­xa­ção de con­tra­tos e salá­ri­os. Essa inde­xa­ção ten­de a gerar uma inér­cia na deter­mi­na­ção dos pre­ços cor­ren­tes em rela­ção ao seu com­por­ta­men­to pas­sa­do, tor­nan­do a infla­ção sig­ni­fi­ca­ti­va e estru­tu­ral­men­te menos sen­sí­vel ao hia­to do pro­du­to. Ou seja, a infla­ção não cai tan­to quan­to o espe­ra­do quan­do o desem­pre­go sobe, nem sobe tão line­ar­men­te quan­do o desem­pre­go cai, por­que depen­de for­te­men­te de meca­nis­mos de cor­re­ção auto­má­ti­ca de pre­ços6Uma aná­li­se que vai ao encon­tro des­ta afir­ma­ção pode ser vis­ta na NPE nº 57: https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/npe-57-o-impacto-desigual-da-taxa-selic-nos-precos-da-economia-brasileira/. O estu­do bus­ca esti­mar o efei­to da polí­ti­ca mone­tá­ria sobre os gru­pos do IPCA e mos­tra empi­ri­ca­men­te que o impac­to de ele­va­ções na Selic sobre a infla­ção agre­ga­da é bas­tan­te limi­ta­do. .

No caso bra­si­lei­ro, a com­bi­na­ção entre fato­res his­tó­ri­cos (inér­cia infla­ci­o­ná­ria) e recen­tes (anco­ra­gem das expec­ta­ti­vas, trans­for­ma­ções tec­no­ló­gi­cas no mun­do do tra­ba­lho e frag­men­ta­ção inter­na­ci­o­nal das cadei­as pro­du­ti­vas) impõe res­tri­ções pro­fun­das e desa­fi­a­do­ras à polí­ti­ca mone­tá­ria. Se a Cur­va de Phil­lips está de fato mais pla­na, os ban­cos cen­trais per­dem seu sinal de aler­ta pre­co­ce. Em um cená­rio onde a infla­ção demo­ra a rea­gir ao supe­ra­que­ci­men­to econô­mi­co, o ris­co de uma polí­ti­ca mone­tá­ria “atra­sa­da” (behind the cur­ve) aumen­ta sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te. Quan­do a infla­ção final­men­te se mani­fes­ta, ela pode aca­bar exi­gin­do ajus­tes de juros mui­to mais seve­ros e reces­si­vos do que seri­am neces­sá­ri­os se a cur­va fos­se mais incli­na­da. Além dis­so, a per­da des­se refe­ren­ci­al obri­ga as auto­ri­da­des a olhar para uma gama mui­to mais ampla de indi­ca­do­res, como a infla­ção de ser­vi­ços e medi­das de pro­du­ti­vi­da­de, em vez de focar na taxa de desemprego.

Por fim, gos­ta­ría­mos de encer­rar lem­bran­do o que dis­se cer­ta vez o jor­na­lis­ta John Yds­tie: “mas, hoje em dia, os empre­gos são mui­to abun­dan­tes, embo­ra a infla­ção per­ma­ne­ça mui­to bai­xa. Isso fez com que algu­mas pes­so­as escre­ves­sem o obi­tuá­rio da cur­va de Phil­lips“7“But the­se days, jobs are very plen­ti­ful, yet infla­ti­on remains very low. That’s got some peo­ple wri­ting the obi­tu­ary for the Phil­lips cur­ve.” (John Yds­tie, NPR, 29 de Outu­bro, 2018).. Anun­ci­ar a mor­te da Cur­va de Phil­lips tal­vez ain­da seja pre­ma­tu­ro, mas seu acha­ta­men­to pare­ce suge­rir que a polí­ti­ca mone­tá­ria aban­do­ne as fór­mu­las mecâ­ni­cas do pas­sa­do em favor de uma aná­li­se mais com­ple­xa e cau­te­lo­sa das novas fron­tei­ras entre tra­ba­lho, tec­no­lo­gia e credibilidade.

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