Tempo de mudança: a reforma da licença paternidade para a garantia do direito ao cuidado

Este estu­do apre­sen­ta uma exten­sa revi­são da lite­ra­tu­ra inter­na­ci­o­nal sobre os impac­tos da ampli­a­ção da licen­ça pater­ni­da­de, com base em mais de 50 pes­qui­sas empí­ri­cas. A aná­li­se está inse­ri­da no con­tex­to bra­si­lei­ro, em que a licen­ça pater­ni­da­de é atu­al­men­te de ape­nas cin­co dias. Tal cená­rio con­tras­ta com expe­ri­ên­ci­as inter­na­ci­o­nais mais robus­tas e com a cres­cen­te neces­si­da­de de polí­ti­cas que pro­mo­vam a cor­res­pon­sa­bi­li­da­de pelo cui­da­do, espe­ci­al­men­te dian­te das desi­gual­da­des de gêne­ro no tra­ba­lho domés­ti­co e do impac­to do cui­da­do não remu­ne­ra­do sobre a par­ti­ci­pa­ção das mulhe­res no mer­ca­do de tra­ba­lho. A par­tir de evi­dên­ci­as empí­ri­cas, o docu­men­to sis­te­ma­ti­za os efei­tos posi­ti­vos da licen­ça pater­ni­da­de em cin­co eixos: (i) mer­ca­do de tra­ba­lho para homens e mulhe­res, (ii) divi­são do tra­ba­lho domés­ti­co e de cui­da­do, (iii) envol­vi­men­to pater­no e desen­vol­vi­men­to infan­til, (iv) esta­bi­li­da­de fami­li­ar e fer­ti­li­da­de, e (v) papel das empre­sas. Os resul­ta­dos mos­tram que polí­ti­cas de licen­ça exclu­si­vas, remu­ne­ra­das e intrans­fe­rí­veis para os homens têm mai­or taxa de ade­são e são efi­ca­zes para esti­mu­lar o envol­vi­men­to pater­no. Embo­ra os efei­tos sobre o mer­ca­do de tra­ba­lho no cur­to pra­zo sejam, em geral, neu­tros para os homens e posi­ti­vos para as mulhe­res, o impac­to mais sig­ni­fi­ca­ti­vo apa­re­ce na mai­or par­ti­ci­pa­ção dos pais no cui­da­do dire­to com as cri­an­ças, no for­ta­le­ci­men­to dos vín­cu­los fami­li­a­res e na cola­bo­ra­ção com as tare­fas domés­ti­cas. Como apon­ta­do pelas evi­dên­ci­as, refor­mas nes­se cam­po con­tri­bu­em para mudan­ças cul­tu­rais na per­cep­ção da pater­ni­da­de e nas nor­mas de gêne­ro, capa­zes de impac­tar posi­ti­va­men­te o mer­ca­do de tra­ba­lho  no médio e lon­go pra­zo. A nota enfa­ti­za a impor­tân­cia de que essas polí­ti­cas não sejam iso­la­das, de modo a poten­ci­a­li­zar seu papel trans­for­ma­dor sobre a divi­são sexu­al do tra­ba­lho. Argu­men­ta-se ain­da que o dese­nho ins­ti­tu­ci­o­nal das licen­ças, incluin­do sua dura­ção, obri­ga­to­ri­e­da­de e remu­ne­ra­ção, influ­en­cia dire­ta­men­te nos seus efei­tos. Por fim, a nota aler­ta para os ris­cos de desi­gual­da­des no aces­so à polí­ti­ca, que per­ma­ne­ce res­tri­ta aos tra­ba­lha­do­res for­mais. Con­clui-se que a ampli­a­ção da licen­ça pater­ni­da­de no Bra­sil é urgen­te e neces­sá­ria, não ape­nas para garan­tir um direi­to cons­ti­tu­ci­o­nal há mui­to negli­gen­ci­a­do, mas tam­bém como par­te de uma agen­da mais ampla de polí­ti­cas de cui­da­do. Essa agen­da deve incluir medi­das para ampli­ar o aces­so uni­ver­sal à licen­ça, enfren­tar as desi­gual­da­des de clas­se e raça no cui­da­do, e pro­mo­ver uma nova cul­tu­ra de pater­ni­da­de ati­va, equi­ta­ti­va e com­pro­me­ti­da com o bem-estar das cri­an­ças, das mulhe­res e da sociedade.

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