Educação superior financiada por endividamento pessoal, distribuição de renda e política pública: lições a partir de evidências para os Estados Unidos
Esta Nota de Política Econômica analisa as relações dinâmicas entre a acumulação de capital de conhecimento (medida pela proporção da população que concluiu o ensino superior), o endividamento estudantil e a distribuição funcional da renda nos Estados Unidos, no período de 2003 a 2019. Ancorado na abordagem de desempenho macroeconômico liderado pela demanda agregada, o estudo testa empiricamente a hipótese de que o endividamento estudantil enfraquece o poder de barganha dos trabalhadores no conflito distributivo em torno da renda agregada, enquanto a acumulação de capital de conhecimento pode, em certas condições, mitigar esse efeito. Os resultados indicam que o aumento da dívida estudantil reduz a participação do trabalho na renda agregada, operando principalmente por meio da compressão dos salários reais. Em contraste, a acumulação de capital de conhecimento exerce um efeito positivo sobre a parcela do trabalho na renda e contribui para a redução do endividamento estudantil, sugerindo que maiores níveis de renda do trabalho diminuem a dependência do crédito para financiar o investimento em educação superior. Ao mesmo tempo, ganhos de produtividade do trabalho tendem a elevar a dívida estudantil e não se traduzem em aumentos dos salários reais, evidenciando um desacoplamento estrutural entre produtividade e remuneração do trabalho. Esses achados reforçam a interpretação de que a determinação dos salários reais e da participação do trabalho na renda agregada depende fundamentalmente de fatores institucionais e do conflito distributivo em torno da renda agregada, e não apenas do desempenho da produtividade laboral. As implicações de política pública são diretas: torna-se central conter o endividamento estudantil excessivo das famílias por meio da expansão da educação superior pública, bem como promover o crescimento dos salários reais, com o fortalecimento das instituições de negociação coletiva, incluindo políticas de valorização do salário mínimo. Nesse contexto, o capital de conhecimento emerge como um mecanismo defensivo para os trabalhadores, reforçando o papel da educação superior pública como instrumento não apenas de qualificação individual, mas também de proteção distributiva e estabilidade macroeconômica.
