Políticas de adensamento tecnológico da indústria eólica no Brasil: balanço e perspectivas

Esta nota ana­li­sa as polí­ti­cas de aden­sa­men­to tec­no­ló­gi­co da indús­tria eóli­ca no Bra­sil ao lon­go das últi­mas déca­das, com foco na fabri­ca­ção de aero­ge­ra­do­res. Para tan­to, revi­sa a lite­ra­tu­ra sobre a evo­lu­ção e os resul­ta­dos des­sas polí­ti­cas e com­pa­ra-as com a expe­ri­ên­cia inter­na­ci­o­nal mais avan­ça­da; sis­te­ma­ti­za dados sobre a tra­je­tó­ria dos inves­ti­men­tos públi­cos em pes­qui­sa cien­tí­fi­ca e desen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co (P&D) nes­sa área, de 2013 a 2023, e sobre as paten­tes bra­si­lei­ras asso­ci­a­das à ener­gia eóli­ca; e, por fim, dis­cu­te o poten­ci­al estra­té­gi­co da Petro­bras no for­ta­le­ci­men­to das capa­ci­da­des naci­o­nais de ino­va­ção nes­se setor, ten­do em vis­ta seus novos inves­ti­men­tos, ini­ci­a­dos em 2023, vin­cu­la­dos à for­ma­ção inci­pi­en­te do mer­ca­do de gera­ção eóli­ca offsho­re no país.

Incen­ti­vos esta­tais con­tri­buí­ram deci­si­va­men­te para a expan­são da gera­ção eóli­ca no Bra­sil e o desen­vol­vi­men­to de uma indús­tria de fabri­ca­ção de aero­ge­ra­do­res, indu­zi­do pelas exi­gên­ci­as de con­teú­do local do BNDES. Os avan­ços foram mui­to mais limi­ta­dos, no entan­to, na pro­mo­ção da loca­li­za­ção de conhe­ci­men­tos, segun­do indi­ca o redu­zi­do núme­ro de depó­si­tos de paten­tes bra­si­lei­ras asso­ci­a­das à ener­gia eóli­ca. Em com­pa­ra­ção com as expe­ri­ên­ci­as inter­na­ci­o­nais mais bem-suce­di­das, per­ce­be-se que a polí­ti­ca indus­tri­al e tec­no­ló­gi­ca para esse setor no Bra­sil falhou em ado­tar medi­das mais robus­tas e coor­de­na­das de trans­fe­rên­cia de tec­no­lo­gia e de fomen­to às capa­ci­da­des naci­o­nais de ino­va­ção tecnológica.

Obser­va-se con­tí­nua e sig­ni­fi­ca­ti­va redu­ção dos inves­ti­men­tos públi­cos em P&D em ener­gia eóli­ca no Bra­sil de 2014 a 2022 (par­ti­cu­lar­men­te pro­nun­ci­a­da des­de 2016), acom­pa­nhan­do o des­fi­nan­ci­a­men­to do Fun­do Naci­o­nal de Desen­vol­vi­men­to Cien­tí­fi­co e Tec­no­ló­gi­co (FNDCT) nes­ses anos – reve­lan­do-se uma tra­je­tó­ria de gas­tos pro-cícli­ca, par­ti­cu­lar­men­te afe­ta­da por polí­ti­cas de aus­te­ri­da­de fis­cal. Nes­se mes­mo perío­do, hou­ve tam­bém subs­tan­ti­va que­da nos inves­ti­men­tos publi­ca­men­te ori­en­ta­dos em P&D em ener­gia eóli­ca, regu­la­dos pela ANEEL. De 2014 a 2022, as des­pe­sas públi­cas e publi­ca­men­te ori­en­ta­das em P&D em fon­tes reno­vá­veis tive­ram redu­ção, em ter­mos reais, de 76%; para a eóli­ca, a que­da no mes­mo perío­do foi de 85%. 

Em 2023, regis­trou-se a reto­ma­da do cres­ci­men­to dos inves­ti­men­tos públi­cos em P&D em ener­gia. Esse cres­ci­men­to foi mais inten­so, no entan­to, para com­bus­tí­veis fós­seis do que para reno­vá­veis – ain­da que para o setor eóli­co, em par­ti­cu­lar, as des­pe­sas públi­cas e publi­ca­men­te ori­en­ta­das em P&D tenham tri­pli­ca­do em ter­mos reais com rela­ção a 2022.

Tam­bém em 2023, obser­vou-se sig­ni­fi­ca­ti­va expan­são dos inves­ti­men­tos da Petro­bras em P&D na indús­tria eóli­ca, vin­cu­la­da ao pla­ne­ja­men­to para dis­pu­tar a lide­ran­ça da for­ma­ção do mer­ca­do de gera­ção offsho­re nes­se seg­men­to no Bra­sil. Essa nova polí­ti­ca da empre­sa vai ao encon­tro de reco­men­da­ções da lite­ra­tu­ra e de expe­ri­ên­ci­as bem-suce­di­das da Chi­na e Dina­mar­ca – lide­ran­ças mun­di­ais na gera­ção eóli­ca e no domí­nio de sua tec­no­lo­gia –, onde com­pa­nhi­as esta­tais tive­ram papel rele­van­te no desen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co pro­du­ti­vo do setor. Por outro lado, os inves­ti­men­tos da Petro­bras em fon­tes reno­vá­veis ain­da ocu­pam um lugar secun­dá­rio em seu orça­men­to, que per­ma­ne­ce ten­do a explo­ra­ção de com­bus­tí­veis fós­seis como pri­o­ri­da­de, inclu­si­ve no cam­po das des­pe­sas em P&D.

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