A desigualdade nas emissões de carbono entre as famílias brasileiras

A pega­da de car­bo­no bus­ca ilus­trar a con­tri­bui­ção do con­su­mo das famí­li­as para as emis­sões de gases de efei­to estu­fa. Ao con­si­de­rar a soma das emis­sões asso­ci­a­das ao con­su­mo de bens e ser­vi­ços pelas famí­li­as, con­si­de­ran­do todas as emis­sões embu­ti­das na sua pro­du­ção e dis­tri­bui­ção, a pega­da de car­bo­no per­mi­te rela­ci­o­nar o padrão de emis­sões bra­si­lei­ro com a dis­tri­bui­ção de ren­da, hábi­tos de con­su­mo dos bra­si­lei­ros e estru­tu­ra pro­du­ti­va do país. Nes­se caso, a pega­da de car­bo­no pode ser­vir como indi­ca­dor rele­van­te para ampli­ar a dis­cus­são sobre as diver­sas dimen­sões da desi­gual­da­de no que tan­ge às ques­tões ambi­en­tal e cli­má­ti­ca. Para tan­to, esta nota dis­cu­te a desi­gual­da­de asso­ci­a­da à pega­da de car­bo­no do con­su­mo das famí­li­as bra­si­lei­ras, cal­cu­la­da a par­tir da POF 2017/2018 e dos coe­fi­ci­en­tes de emis­são de uma matriz de insu­mo-pro­du­to para o Bra­sil. Ao ana­li­sar a pega­da de car­bo­no em ter­mos agre­ga­dos e seto­ri­ais e dis­cu­ti-la à luz de indi­ca­do­res como o índi­ce de Gini e as elas­ti­ci­da­des ren­da e con­su­mo das emis­sões, é pos­sí­vel avan­çar em algu­mas con­si­de­ra­ções acer­ca da desi­gual­da­de nas emis­sões de car­bo­no asso­ci­a­das ao con­su­mo das famí­li­as bra­si­lei­ras. Des­ta­ca-se, que: (i) o Bra­sil repli­ca o padrão inter­na­ci­o­nal, segun­do o qual os mais ricos ten­dem a apre­sen­tar uma pega­da de car­bo­no mai­or, refle­tin­do a con­cen­tra­ção de ren­da e con­su­mo no topo da dis­tri­bui­ção. No Bra­sil, o 1% mais rico pos­sui uma pega­da de car­bo­no per capi­ta média apro­xi­ma­da­men­te 7 vezes mai­or do que a dos 10% mais pobres. Ain­da, o con­su­mo dos 10% mais ricos emi­te mais do que a soma das emis­sões dos 35% da base da dis­tri­bui­ção. (ii) A desi­gual­da­de nas emis­sões per capi­ta medi­da pelo índi­ce de Gini é menor do que aque­la refe­re à ren­da per capi­ta, um refle­xo do fato de que o con­su­mo ten­de a cres­cer pro­por­ci­o­nal­men­te menos do a ren­da. (iii) As prin­ci­pais cate­go­ri­as de con­su­mo res­pon­sá­veis pelas emis­sões das famí­li­as bra­si­lei­ras são: ali­men­ta­ção, mora­dia e trans­por­te, com ênfa­se na pri­mei­ra, que res­pon­de pela mai­or par­te das emis­sões no Bra­sil. Esse orde­na­men­to con­tras­ta com o obser­va­do em outros paí­ses, onde o setor ener­gé­ti­co (pre­sen­te nos cus­tos de mora­dia) cos­tu­ma ser o prin­ci­pal res­pon­sá­vel pelas emis­sões domés­ti­cas. (iv) O con­su­mo com pro­du­tos agro­pe­cuá­ri­os e ener­gia, entre­tan­to, cor­res­pon­de res­pec­ti­va­men­te a 2,45% e 4,73% do con­su­mo total médio per capi­ta das famí­li­as, ain­da que repre­sen­tem a mai­or con­tri­bui­ção em ter­mos de emis­sões per capi­ta. Isso impli­ca que redu­ções na pega­da de car­bo­no das famí­li­as bra­si­lei­ras não depen­dem ape­nas do nível de con­su­mo, sen­do fun­da­men­tal uma melho­ria (redu­ção) dos coe­fi­ci­en­tes de emis­sões, em espe­ci­al do setor agro­pe­cuá­rio. Tem-se, por­tan­to, um pro­ble­ma asso­ci­a­do ao padrão de emis­sões da estru­tu­ra pro­du­ti­va (ofer­ta) que se sobre­põe ao impac­to do con­su­mo das famí­li­as (deman­da).

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