Intensificação da agropecuária aumenta ao invés de reduzir a pressão sobre a floresta amazônica: Paradoxo de Jevons impera nos casos da soja e do gado no Brasil (2001–2021)
Vem sendo sugerido com insistência no debate público que o aumento da produtividade física das commodities agropecuárias deveria ser considerado como estratégia para conter o nível alarmante de desmatamento alcançado na floresta amazônica brasileira. Utilizando a metodologia Constant Market Share (CMS), este artigo verifica, por um Índice Jevons- Borlaug (IJB), o efeito líquido sobre a necessidade de novas terras resultante da intensificação historicamente verificada de 2001 a 2021 na produção de soja e carne bovina, considerando a variação derivada na competitividade e na demanda final do Brasil no mercado mundial e da Amazônia no mercado brasileiro. Os resultados, para três das quatro situações sistêmicas relevantes tratadas, apresentam a dominância do Paradoxo de Jevons: para a soja no Brasil em relação ao mercado mundial obtém-se um IJB igual a 3,33. Isso significa que, ao final, 3,33 hectares de terras novas foram exigidos em consequência da elevação da competitividade para cada hectare poupado pela intensificação. Para a soja na Amazônia em relação ao mercado brasileiro obtém-se um IJB de 1,01; para a pecuária bovina no Brasil em relação ao mundo obtém-se um IJB igual a 0,14; por fim, a exceção: para a pecuária bovina na Amazônia em relação ao mercado brasileiro obtém-se um IJB de ‑0,13 (para cada hectare economizado com intensificação, houve uma redução de ‑0,13 hectares na necessidade de terras). De modo que se conclui que a intensificação, pelo impacto que tem na competitividade, tem sido um motor do desmatamento no Brasil e na Amazônia, constituindo, assim, um certamente alvo controverso para políticas que visam a preservação das florestas. O artigo chama atenção para um outo aspecto que associa a competitividade brasileira no mercado mundial e desmatamento: os custos relativos à terra no Brasil e na Amazônia são pouco mais de 1/3 dos de seus concorrentes; a produção de terras baratas pelo desmatamento da floresta amazônica tem aí inequívoco papel.
