Salvando vidas e a economia: a importância dos gastos públicos na crise causada pela Covid-19

Marcado desde o início pelo falso dilema entre salvar vidas ou salvar a economia, o debate acerca da resposta mais adequada dos governos à crise sanitária avançou ao redor do mundo em direção a uma combinação entre políticas de saúde e medidas econômicas voltadas à preservação da renda das famílias e à sobrevivência das empresas. Esta Nota estima o impacto das diferentes medidas governamentais adotadas sobre o desempenho econômico de um painel de 45 países ao redor do mundo em 2020. Nossos resultados sugerem que os estímulos fiscais foram muito significativos em atenuar a recessão. O potencial impacto negativo de curto prazo sobre o PIB, resultado do necessário distanciamento social e restrições sobre a produção (diminuição da presença nos locais de trabalho), pôde ser mais do que compensado por uma política fiscal ativa e um comprometimento dos gestores públicos com políticas de saúde. Em especial, a medida de esforço fiscal, que inclui gastos voltados à preservação da renda das famílias e de alívio a empresas, é a única variável que, independentemente da especificação utilizada no modelo, aparece como significante e positiva para a variação do PIB observada no conjunto de países estudado. Os resultados das nossas estimações indicam que aumentos de 1% do gasto público em relação ao PIB promoveram um aumento do Índice semanal da atividade econômica da OCDE de entre 1,9 e 2,1% em relação ao seu valor inicial. As políticas de distanciamento social, de garantia de equipamentos de saúde e medicamentos, e do uso adequado de máscaras foram e ainda são fundamentais para conter o vírus e impedir mais mortes, como indicam todos os especialistas epidemiológicos. A salvação da economia, nessa esteira, não depende de um menor isolamento ou de um descomprometimento com a saúde. Ao contrário, esta nota deixa nítido que o melhor remédio para a recessão são estímulos fiscais que garantam a renda das famílias e a saúde financeira das empresas, possibilitando uma resposta sanitária adequada por parte dos governos.