Quão mais fundo poderia ter sido esse poço? Analisando o efeito estabilizador do Auxílio Emergencial em 2020

Até o final de junho do ano passado, a menor projeção das instituições financeiras consultadas pelo Banco Central no Boletim Focus para a queda do PIB de 2020 chegou a ser de 11%. Essa mínima passou a ser de 5% no Boletim de janeiro deste ano, com as projeções para 2020 girando em torno de 4,3% de queda do PIB. Esta Nota analisa um dos fatores que nos levaram a atenuar substancialmente a profundidade da recessão no primeiro ano de pandemia: o chamado efeito multiplicador do Auxílio Emergencial. Nossas simulações indicam que, com um gasto equivalente a 4,1% do PIB de 2020, o Auxílio foi responsável por evitar que nossa economia caísse entre 8,4% e 14,8% do ano passado. A redução no consumo das famílias poderia ter diminuído entre 11 e 14,7% na ausência desse benefício, ao invés de sofrer a queda de 6% prevista atualmente. Estimamos também que o efeito multiplicador do Auxílio serviu como estabilizador da razão dívida/PIB não apenas pelo aumento no denominador, mas também por atenuar a queda da arrecadação de impostos em meio à recessão. Ao analisarmos o comportamento da Dívida Líquida do Setor Público identificamos que sua relação com o PIB poderia ter se elevado em 3 pontos percentuais acima do observado caso o auxílio e seu impacto multiplicador não tivessem existido. Assim, é possível concluir que, apesar da magnitude elevada de nossos gastos no combate à pandemia em proporção ao PIB – entre os vinte maiores do mundo, segundo o FMI – seus impactos macroeconômicos foram substantivos. Desta forma, a interrupção abrupta do benefício pode não apenas elevar indicadores de pobreza e desigualdade, como também prejudicar nossas perspectivas de retomada econômica em 2021.