O regime internacional de propriedade intelectual como obstáculo à transição energética no Sul Global: a proposta de quebra de patentes de tecnologias verdes

Esta nota apre­sen­ta evi­dên­ci­as sobre a desi­gual­da­de na cor­ri­da mun­di­al pelas tec­no­lo­gi­as ver­des e ana­li­sa cri­ti­ca­men­te o papel do regi­me inter­na­ci­o­nal de pro­pri­e­da­de inte­lec­tu­al nes­se qua­dro, como bar­rei­ra à tran­si­ção eco­ló­gi­ca nos paí­ses do Sul Glo­bal. Por fim, apre­sen­ta o his­tó­ri­co de pro­pos­tas des­ses paí­ses — já defen­di­da por Áfri­ca do Sul, Bra­sil, Egi­to, Equa­dor e Índia, por exem­plo — de “que­brar as paten­tes” des­sas tec­no­lo­gi­as (isto é, em ter­mos téc­ni­cos, rea­li­zar o seu licen­ci­a­men­to com­pul­só­rio) e dis­cu­te os seus fun­da­men­tos econô­mi­cos e jurídicos.

Os dados sobre a alta con­cen­tra­ção de pedi­dos inter­na­ci­o­nais de paten­tes asso­ci­a­das às ener­gi­as eóli­ca e solar em paí­ses de alta ren­da e na Chi­na evi­den­ci­am a con­di­ção de pro­fun­da depen­dên­cia tec­no­ló­gi­ca de todos os demais paí­ses do Sul Glo­bal na tran­si­ção ener­gé­ti­ca. Embo­ra o Bra­sil seja o 6º país do mun­do com mai­or capa­ci­da­de ins­ta­la­da de gera­ção eóli­ca onsho­re (ABEEÓLICA, 2024), não se encon­tra entre os vin­te paí­ses que mais fize­ram pedi­dos inter­na­ci­o­nais de paten­tes (PCT) nes­sa área de 2000 a 2024. Os 10 paí­ses que lide­ram esse ran­king foram res­pon­sá­veis por 81,3% dos depó­si­tos inter­na­ci­o­nais de paten­tes de ener­gia eóli­ca nes­se perío­do; entre eles, ape­nas a Chi­na não é um país de alta ren­da per capi­ta. O Bra­sil, mes­mo ten­do sido res­pon­sá­vel por ape­nas 0,4% dos pedi­dos inter­na­ci­o­nais de paten­tes, lide­ra a Amé­ri­ca Lati­na nes­sa lis­ta e está à fren­te tam­bém de todos os paí­ses da Áfri­ca. Na gera­ção solar, a con­cen­tra­ção é ain­da mai­or: 5 paí­ses foram res­pon­sá­veis por 77,3% pedi­dos inter­na­ci­o­nais de paten­tes de 2000 a 2024; entre os 20 paí­ses que lide­ram esse ran­king, a Chi­na, nova­men­te, é o úni­co que não é um país de alta ren­da. O Bra­sil fez ape­nas 0,19% dos pedi­dos inter­na­ci­o­nais de paten­tes nes­sa área nes­se perío­do, nova­men­te lide­ran­do a Amé­ri­ca Lati­na, e se equi­pa­ran­do à Áfri­ca do Sul, que lide­ra o con­ti­nen­te africano.

As deman­das mais ambi­ci­o­sas de refor­ma do atu­al regi­me inter­na­ci­o­nal de pro­pri­e­da­de inte­lec­tu­al dis­cu­tem a sua subs­ti­tui­ção por um sis­te­ma de Bens Públi­cos Glo­bais. A pro­pos­ta de licen­ci­a­men­to com­pul­só­rio de paten­tes cli­má­ti­cas, mes­mo sen­do mui­to mais res­tri­ta, tam­bém tem sido sis­te­ma­ti­ca­men­te recha­ça­da pelos paí­ses do Nor­te Glo­bal, lide­ra­dos pelos Esta­dos Uni­dos, embo­ra os acor­dos cli­má­ti­cos inter­na­ci­o­nais esta­be­le­çam a obri­ga­ção dos paí­ses desen­vol­vi­dos de “pro­mo­ver, faci­li­tar e finan­ci­ar” a trans­fe­rên­cia de tec­no­lo­gi­as ver­des para os paí­ses em desenvolvimento.

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