NPE 51: Custo da maternidade no Brasil: as múltiplas consequências do trabalho de cuidado não remunerado realizado por mulheres

O pre­sen­te estu­do tem como obje­ti­vo ana­li­sar as con­sequên­ci­as da mater­ni­da­de (ou seus cus­tos) sobre a inser­ção das mulhe­res no mer­ca­do de tra­ba­lho e sobre sua expo­si­ção à pobre­za de tem­po. Pro­põe-se uma com­pa­ra­ção da situ­a­ção de mulhe­res em dife­ren­tes con­tex­tos soci­o­e­conô­mi­cos, de modo a con­tri­buir para uma melhor com­pre­en­são das com­ple­xi­da­des envol­vi­das no com­ba­te à desi­gual­da­de de gêne­ro. Em uma soci­e­da­de patri­ar­cal, a ren­da e a deci­são de per­ma­ne­cer ou não no mer­ca­do de tra­ba­lho são afe­ta­das pelo esta­do civil da mãe. Por outro lado, em uma soci­e­da­de estru­tu­ral­men­te racis­ta, as desi­gual­da­des e hie­rar­qui­as raci­ais inter­fe­rem dire­ta­men­te nos mei­os e recur­sos dis­po­ní­veis para o exer­cí­cio da mater­ni­da­de. De modo a evi­den­ci­ar algu­mas des­sas dinâ­mi­cas, ana­li­sa­mos dife­ren­tes con­fi­gu­ra­ções fami­li­a­res com base nos dados dis­po­ni­bi­li­za­dos pela Pes­qui­sa Naci­o­nal por Amos­tra de Domi­cí­li­os Con­tí­nua (PNADc). Os resul­ta­dos evi­den­ci­am a mai­or pro­pen­são à pobre­za de ren­da e de tem­po de domi­cí­li­os mono­pa­ren­tais che­fi­a­dos por mulhe­res, expres­sa nos meno­res ren­di­men­tos per capi­ta des­sas famí­li­as e na mai­or neces­si­da­de de con­ci­li­ar jor­na­das duplas e tri­plas, vis­to que suas taxas de par­ti­ci­pa­ção no mer­ca­do de tra­ba­lho são, em média, mais ele­va­das, e ao mes­mo tem­po, o núme­ro médio de horas sema­nais gas­tas com tra­ba­lho não remu­ne­ra­do de cui­da­do é simi­lar ao das mulhe­res casa­das. Não sur­pre­en­den­te­men­te, essa rea­li­da­de afe­ta de manei­ra desi­gual mulhe­res mais ou menos vul­ne­rá­veis, con­si­de­ran­do dife­ren­tes recor­tes de raça e clas­se. Nes­se sen­ti­do, ain­da que mulhe­res bran­cas tam­bém sofram pena­li­da­des advin­das da cri­a­ção de seus filhos, sobre­tu­do em arran­jos fami­li­a­res mono­pa­ren­tais, as mulhe­res negras estão mais expos­tas ao cus­to da mater­ni­da­de por­que, em uma soci­e­da­de racis­ta e colo­ni­al como a bra­si­lei­ra, encon­tram mai­o­res difi­cul­da­des para se inse­rir e per­ma­ne­cer no mer­ca­do de tra­ba­lho, além de rece­be­rem salá­ri­os mais bai­xos. Ade­mais, elas estão sobrer­re­pre­sen­ta­das nos domi­cí­li­os mono­pa­ren­tais. Pela pers­pec­ti­va de clas­se, para mulhe­res dos estra­tos supe­ri­o­res de ren­da, o aces­so ao mer­ca­do de tra­ba­lho, no con­tex­to da mater­ni­da­de, é faci­li­ta­do pela ter­cei­ri­za­ção remu­ne­ra­da de res­pon­sa­bi­li­da­des domés­ti­cas, o que não é uma opção para mulhe­res de bai­xa ren­da. As aná­li­ses apre­sen­ta­das evi­den­ci­am a urgên­cia de se pen­sar alter­na­ti­vas para a divi­são do tra­ba­lho de cui­da­do na soci­e­da­de bra­si­lei­ra. O mode­lo patri­ar­cal da famí­lia nucle­ar, em que famí­li­as mono­pa­ren­tais são invi­si­bi­li­za­das e a cri­a­ção dos filhos se tor­na res­pon­sa­bi­li­da­de qua­se exclu­si­va da mãe, não é sus­ten­tá­vel do pon­to de vis­ta soci­al e traz con­sequên­ci­as gra­ves para o  desen­vol­vi­men­to infan­til e para a auto­no­mia econô­mi­ca e a dig­ni­da­de das mulhe­res que se tor­nam mães. É pre­ci­so que se for­mu­lem espa­ços para a soci­a­li­za­ção do cui­da­do com cri­an­ças. Somen­te com uma nova repar­ti­ção soci­al do tra­ba­lho de cui­da­do, base­a­da na cor­res­pon­sa­bi­li­za­ção entre o Esta­do, as famí­li­as, a comu­ni­da­de, as empre­sas e os indi­ví­du­os, sejam homens ou mulhe­res, o direi­to à mater­ni­da­de segu­ra e volun­tá­ria, assim como o direi­to ao tra­ba­lho remu­ne­ra­do dig­no e em con­di­ções equâ­ni­mes entre os gêne­ros, serão garantidos.