Correção das informações sobre tempo dedicado aos cuidados não remunerados no Brasil
Esta nota técnica apresenta um esforço metodológico sistemático para revisar, desenvolver e aprimorar estratégias de correção das estimativas de tempo dedicado aos cuidados não remunerados no Brasil, a partir dos dados de 2015 e 2019 da PNAD Contínua. Partindo do diagnóstico de limitações relevantes nos dados nacionais de uso do tempo — em especial a subnotificação de cuidados diretos e a descontinuidade gerada pela reformulação do questionário em 2019 —, o estudo compara três abordagens metodológicas com o objetivo de produzir estimativas mais robustas e socialmente sensíveis do trabalho de cuidado. A principal contribuição reside no desenvolvimento de soluções baseadas nos dados nacionais, tirando proveito das melhorias no questionário da PNAD de 2019, que captou melhor o trabalho de cuidado, sobretudo o de homens. As estratégias testadas incluem: (i) imputação hot deck com Bootstrap Bayesiano, corrigindo a subnotificação entre mulheres residentes com homens; e (ii) duas abordagens de padronização indireta, que diferem quanto à definição dos grupos de referência e à magnitude dos fatores de correção adotados. Apesar das diferenças entre os métodos, os resultados convergem ao indicar uma carga de trabalho de cuidado substancialmente maior entre as mulheres do que aquela captada pelas estatísticas originais da PNAD 2019, sobretudo entre mulheres em idade ativa e de menor renda. Além destes resultados, as horas de trabalho de cuidados de homens e mulheres são decompostas em cuidados diretos e cuidados indiretos. Como agenda futura, propõe-se a incorporação explícita de desigualdades por raça, território e composição domiciliar, bem como o desenvolvimento de medidas de pobreza de tempo, visando qualificar tanto as estatísticas quanto os subsídios para a formulação de políticas públicas de cuidado mais equitativas.
