Aspectos regionais, raciais e de gênero da desigualdade entre agricultura familiar e não familiar

Este tra­ba­lho apre­sen­ta um pano­ra­ma das desi­gual­da­des entre a agri­cul­tu­ra fami­li­ar e a não fami­li­ar no Bra­sil, aten­tan­do par­ti­cu­lar­men­te para os dife­ren­ci­ais de aces­so a recur­sos pro­du­ti­vos por gêne­ro, raça e região. Ten­do como base o Cen­so Agro­pe­cuá­rio de 2017, a sis­te­ma­ti­za­ção evi­den­cia a já conhe­ci­da desi­gual­da­de fun­diá­ria bra­si­lei­ra: i) ape­sar de a agri­cul­tu­ra fami­li­ar carac­te­ri­zar 77% das pro­pri­e­da­des agro­pe­cuá­ri­as no Bra­sil, ela ocu­pa ape­nas 23% da área total; ii) ape­sar do menor aces­so dos pro­du­to­res fami­li­a­res à ter­ra e a capi­tal físi­co fren­te aos pro­du­to­res não fami­li­a­res (11,5% e 24,5% pos­su­em tra­to­res, res­pec­ti­va­men­te), a agri­cul­tu­ra fami­li­ar empre­ga a mai­o­ria da popu­la­ção ocu­pa­da no setor agrí­co­la (67%).

Sob um olhar raci­al e de gêne­ro, há pro­por­ci­o­nal­men­te mais mulhe­res e pes­so­as negras entre pro­du­to­res e tra­ba­lha­do­res da agri­cul­tu­ra fami­li­ar do que da agri­cul­tu­ra não fami­li­ar. Des­ta­ca-se, ain­da, a pre­do­mi­nân­cia de homens bran­cos enquan­to pro­du­to­res não fami­li­a­res (45,6%), a qual con­tras­ta com a pre­do­mi­nân­cia de homens negros enquan­to pro­du­to­res fami­li­a­res (42,4%). Além dis­so, são evi­den­tes as dis­pa­ri­da­des de aces­so a capi­tal entre mulhe­res da agri­cul­tu­ra fami­li­ar e homens da agri­cul­tu­ra não fami­li­ar: ape­nas 4,2% delas têm aces­so a equi­pa­men­tos, con­tra 26,3% deles. A desi­gual­da­de de raça e gêne­ro, entre­tan­to, é pre­sen­te em ambos os tipos de agri­cul­tu­ra: mulhe­res e pes­so­as negras ocu­pam e tra­ba­lham em pro­pri­e­da­des meno­res, tan­to na agri­cul­tu­ra fami­li­ar quan­to na agri­cul­tu­ra não fami­li­ar. Além dis­so, na agri­cul­tu­ra fami­li­ar, enquan­to ape­nas 11,2% das mulhe­res pro­du­to­ras têm aces­so à ins­tru­ção téc­ni­ca, essa pro­por­ção alcan­ça 19,9% dos pro­du­to­res do gêne­ro masculino. 

Por fim, com rela­ção às dis­pa­ri­da­des regi­o­nais, os dados infor­mam que o Nor­des­te con­cen­tra em tor­no de 4,7 milhões de pes­so­as ocu­pa­das na agri­cul­tu­ra fami­li­ar, o que repre­sen­ta apro­xi­ma­da­men­te a meta­de do total de pes­so­as ocu­pa­das nes­se tipo de agri­cul­tu­ra, e qua­se um ter­ço do total de ocu­pa­dos na agri­cul­tu­ra em geral no Bra­sil. Jun­ta­men­te com a região Nor­te, o Nor­des­te con­cen­tra tam­bém a mai­o­ria das pes­so­as negras ocu­pa­das na agri­cul­tu­ra e/ou diri­gen­tes de esta­be­le­ci­men­tos agro­pe­cuá­ri­os, bem como a mai­o­ria dos pro­du­to­res sem alfa­be­ti­za­ção e sem aces­so a ins­tru­ção téc­ni­ca ou capi­tal físi­co. É inte­res­san­te con­tras­tar essa infor­ma­ção com o que se encon­tra para a região Sul, que se des­ta­ca não só pelo ele­va­do aces­so dos agri­cul­to­res fami­li­a­res à ins­tru­ção téc­ni­ca, mas pela alta pro­por­ção de pro­du­to­res fami­li­a­res asso­ci­a­dos a coo­pe­ra­ti­vas e com aces­so a cré­di­to, fato­res que estão inti­ma­men­te cor­re­la­ci­o­na­dos: enquan­to menos de 8% dos pro­du­to­res homens da agri­cul­tu­ra fami­li­ar da região Nor­des­te rece­bem ins­tru­ção téc­ni­ca, mais da meta­de dos pro­du­to­res fami­li­a­res sulis­tas do gêne­ro mas­cu­li­no têm aces­so à ins­tru­ção técnica.

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