O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade

POR Gui­lher­me Klein

A expan­são das bets no Bra­sil tem levan­ta­do pre­o­cu­pa­ções em dife­ren­tes áre­as, dos ris­cos de vício e seus impac­tos sobre a saú­de aos efei­tos sobre o endi­vi­da­men­to e a situ­a­ção finan­cei­ra das famí­li­as. Há, porém, uma dimen­são menos explo­ra­da des­se fenô­me­no. Quan­do uma par­ce­la rele­van­te da ren­da das famí­li­as é trans­fe­ri­da para as casas de apos­tas, os efei­tos des­sa trans­fe­rên­cia ultra­pas­sam o orça­men­to domés­ti­co. Nes­te exer­cí­cio, bus­ca­mos dimen­si­o­nar esses impac­tos sobre o con­su­mo, o PIB, a arre­ca­da­ção e a dis­tri­bui­ção de renda.

Em um estu­do recen­te, o Cen­tro Cel­so Fur­ta­do esti­mou que, em 2025, hou­ve uma trans­fe­rên­cia líqui­da das famí­li­as para as pla­ta­for­mas de apos­tas – ou seja, a dife­ren­ça entre o que é apos­ta­do e o que as pes­so­as rece­bem de vol­ta – de cer­ca de R$ 62,5 bilhões. 

Esse é um mon­tan­te expres­si­vo e pode acar­re­tar uma série de pro­ble­mas, como cor­tes em des­pe­sas essen­ci­ais, difi­cul­da­des para hon­rar com­pro­mis­sos finan­cei­ros e aumen­to do endi­vi­da­men­to. Mas o que isso sig­ni­fi­ca para a eco­no­mia e para as con­tas públi­cas? O fato de que ape­nas par­te do dinhei­ro gas­to com apos­tas retor­na às mãos das famí­li­as impli­ca uma redu­ção do con­su­mo, afe­tan­do nega­ti­va­men­te o cres­ci­men­to do PIB e a pró­pria arre­ca­da­ção do governo.

Para cal­cu­lar esse efei­to, uti­li­za­mos as esti­ma­ti­vas de pro­pen­são mar­gi­nal a con­su­mir por dife­ren­tes fai­xas de ren­da, esti­ma­das na Nota de Polí­ti­ca Econô­mi­ca (NPE) 8, e esti­ma­ti­vas sobre quan­to cada fai­xa de ren­da gas­ta em apos­tas. A pro­pen­são mar­gi­nal a con­su­mir mos­tra quan­to de cada R$ 1 adi­ci­o­nal de ren­da aca­ba se trans­for­man­do em con­su­mo. Ela ten­de a ser mai­or entre as famí­li­as de menor ren­da: como uma par­ce­la mai­or de suas neces­si­da­des ain­da pre­ci­sa ser aten­di­da, um aumen­to de ren­da cos­tu­ma se trans­for­mar mais dire­ta­men­te em gas­tos com ali­men­ta­ção, mora­dia, ves­tuá­rio, por exem­plo. Entre as famí­li­as de mai­or ren­da, por outro lado, uma par­ce­la mai­or da ren­da adi­ci­o­nal pode ser pou­pa­da. Por­tan­to, quan­to mais con­cen­tra­da nas famí­li­as mais pobres for essa per­da de ren­da para as bets, mai­or será o efei­to sobre o con­su­mo agregado.

 

Pro­ce­di­men­tos meto­do­ló­gi­cos e cenários

Para cons­truir um pri­mei­ro cená­rio de dis­tri­bui­ção das per­das com apos­tas entre as dife­ren­tes fai­xas de ren­da, par­ti­mos da dis­tri­bui­ção dos pró­pri­os apos­ta­do­res. Segun­do o Data­Se­na­do (2024), 52% dos apos­ta­do­res rece­bi­am até 2 salá­ri­os míni­mos, 35% entre 2 e 6 salá­ri­os míni­mos e 13% aci­ma de 6 salá­ri­os míni­mos. Já o IPESPE/FEBRABAN (2024) mos­tra que 45% da amos­tra tinha ren­da fami­li­ar de até 2 salá­ri­os míni­mos, 32% entre 2 e 5 e 23% aci­ma de 5 salá­ri­os míni­mos; den­tro de cada fai­xa, 9%, 14% e 14%, res­pec­ti­va­men­te, decla­ra­ram apos­tar. Ao com­bi­nar a par­ti­ci­pa­ção de cada fai­xa na popu­la­ção com sua taxa de par­ti­ci­pa­ção nas apos­tas, esti­ma-se que 34,5%, 38,1% e 27,4% dos apos­ta­do­res da pes­qui­sa per­ten­ci­am, res­pec­ti­va­men­te, a essas três fai­xas de ren­da. A média sim­ples dos resul­ta­dos das duas pes­qui­sas, após a har­mo­ni­za­ção apro­xi­ma­da das fai­xas de ren­da, resul­ta em par­ti­ci­pa­ções de 43%, 37% e 20%. 

No cená­rio A, assu­mi­mos que essas pro­por­ções tam­bém cor­res­pon­dem à dis­tri­bui­ção do volu­me per­di­do com apos­tas, o que equi­va­le a supor que a per­da média por apos­ta­dor seja seme­lhan­te entre as dife­ren­tes fai­xas de renda.

No cená­rio B, admi­ti­mos que o volu­me de gas­tos com apos­tas é mais con­cen­tra­do nas fai­xas de ren­da mais altas. Como não há uma dis­tri­bui­ção obser­va­da da per­da líqui­da espe­ci­fi­ca­men­te para bets, usa­mos como refe­rên­cia a POF 2017–2018 do IBGE, Tabe­la 1.1.1 dos Pri­mei­ros Resul­ta­dos, para a cate­go­ria mais ampla “jogos e apos­tas” (IBGE, 2019). Vale lem­brar que, por ilus­trar uma amos­tra refe­ren­te ao biê­nio 2017–2018, o tama­nho des­sa cate­go­ria pode estar subes­ti­ma­do ten­do em vis­ta a cres­cen­te rele­vân­cia das bets; o que dela extraí­mos é somen­te a pro­por­ção de gas­tos por fai­xa de ren­da. Mul­ti­pli­can­do, em cada fai­xa, a des­pe­sa média men­sal fami­li­ar pelo núme­ro de famí­li­as e agre­gan­do as clas­ses, obte­mos apro­xi­ma­da­men­te 10,3% do gas­to total entre famí­li­as de até 2 salá­ri­os míni­mos, 40,8% entre 2 e 6 e 49,0% aci­ma de 6 salá­ri­os mínimos.

TABELA 1: CENÁRIOS DE ALOCAÇÃO DE TRANSFERÊNCIA DE RECURSOS DAS FAMÍLIAS PARA AS BETS

Resul­ta­dos

 

Dados os mul­ti­pli­ca­do­res esti­ma­dos na NPE 8 e essas par­ti­ci­pa­ções por fai­xa de ren­da, esti­ma­mos que, em 2025, as apos­tas reti­ra­ram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da ati­vi­da­de econô­mi­ca, em razão da redu­ção do con­su­mo, o que equi­va­le a cer­ca de 0,9% a 1,1% do PIB. Para dimen­si­o­nar essa mag­ni­tu­de, a per­da esti­ma­da cor­res­pon­de a algo entre 40% e 50% de todo o cres­ci­men­to da eco­no­mia em 2025 e é cer­ca de cin­co vezes mai­or que esti­ma­ti­vas do impac­to do tari­fa­ço ame­ri­ca­no sobre o PIB brasileiro.

Mes­mo levan­do em con­ta as esti­ma­ti­vas dos empre­gos dire­tos e indi­re­tos cri­a­dos asso­ci­a­dos às bets, como a pro­du­zi­da pela LCA Con­sul­to­res, de cer­ca de 15,5 mil tra­ba­lha­do­res, cuja mas­sa sala­ri­al pode­ria gerar até R$ 1 bilhão de ren­da total na eco­no­mia, o qua­dro pra­ti­ca­men­te não muda.

Esse efei­to nega­ti­vo sobre o con­su­mo tam­bém reduz a arre­ca­da­ção do gover­no. Para esti­mar essa per­da, faze­mos um exer­cí­cio sim­ples: assu­mi­mos, em linha com dife­ren­tes esti­ma­ti­vas, que uma que­da de 1% do PIB pro­vo­ca uma que­da entre 0,8% e 1,2% na arre­ca­da­ção (elas­ti­ci­da­de-PIB da arre­ca­da­ção entre 0,8 e 1,2). Como a car­ga tri­bu­tá­ria bru­ta do Gover­no Geral foi de cer­ca de 32,4% do PIB em 2025, a redu­ção da ati­vi­da­de econô­mi­ca esti­ma­da aci­ma impli­ca­ria uma per­da de arre­ca­da­ção entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Des­con­tan­do os cer­ca de R$ 9 bilhões arre­ca­da­dos dire­ta­men­te com as pla­ta­for­mas de apos­tas, o efei­to líqui­do sobre as con­tas públi­cas ain­da seria nega­ti­vo em, no míni­mo, R$ 22 bilhões, poden­do che­gar a até R$ 46 bilhões. Para dar uma dimen­são des­se valor, ele equi­va­le a 10% e 20%, res­pec­ti­va­men­te, de todo o orça­men­to des­ti­na­do à saú­de públi­ca na LOA de 2025. Em suma, embo­ra as bets gerem arre­ca­da­ção dire­ta, a per­da de ati­vi­da­de econô­mi­ca que pro­vo­cam mais do que com­pen­sa essa receita.

Entre­tan­to, há outra pos­si­bi­li­da­de a ser con­si­de­ra­da: pode ser que, em vez de pre­ju­di­car o con­su­mo, par­te das apos­tas tenha gera­do um aumen­to no endi­vi­da­men­to. Nes­se cená­rio, con­si­de­ran­do que o sal­do de cré­di­to para as pes­so­as físi­cas subiu cer­ca de R$ 450 bilhões[1] (de R$ 3,97 tri­lhões para R$ 4,42 tri­lhões), se toda a trans­fe­rên­cia líqui­da de R$ 62,5 bilhões tives­se sido finan­ci­a­da por novo cré­di­to – uma hipó­te­se extre­ma – ela cor­res­pon­de­ria a cer­ca de 14% do aumen­to do endi­vi­da­men­to das famí­li­as em 2025.

É pos­sí­vel tam­bém uma pri­mei­ra apro­xi­ma­ção sobre o efei­to nega­ti­vo na dis­tri­bui­ção de ren­da. Levan­do em con­ta que o 1% mais rico fica com cer­ca de 24% de toda a ren­da do país (NPE 52), esti­ma­mos que essa trans­fe­rên­cia de dinhei­ro das famí­li­as para as bets aumen­tou a con­cen­tra­ção de ren­da no topo (1% mais rico) entre 0,5% e 2,1%, a depen­der da hipó­te­se sobre quem rece­be os lucros das casas de apos­ta – no pri­mei­ro caso, ape­nas reti­ra­mos os R$ 62,5 bilhões da ren­da dos 99% da base, enquan­to no segun­do adi­ci­o­na­mos esse valor para o 1% mais rico. Mes­mo no caso mais con­ser­va­dor, é um efei­to sig­ni­fi­ca­ti­vo em um país em que a con­cen­tra­ção de ren­da já é extre­ma­men­te ele­va­da.[2]

As apos­tas apre­sen­tam desa­fi­os de diver­sas ordens. Do pon­to de vis­ta econô­mi­co, o pro­ble­ma não se limi­ta aos efei­tos indi­vi­du­ais, como o com­pro­me­ti­men­to da ren­da dis­po­ní­vel para con­su­mo e o aumen­to do endi­vi­da­men­to. Esses efei­tos tam­bém têm con­sequên­ci­as macro­e­conô­mi­cas. Ao reti­rar ren­da das famí­li­as, sobre­tu­do das de menor ren­da, que ten­dem a des­ti­nar uma par­ce­la mai­or de seus recur­sos ao con­su­mo, as apos­tas podem aumen­tar a desi­gual­da­de, redu­zir a deman­da e afe­tar o PIB em mag­ni­tu­de poten­ci­al­men­te rele­van­te, como esti­ma­mos aqui. A retra­ção da ati­vi­da­de econô­mi­ca, por sua vez, tam­bém reduz a arre­ca­da­ção em um con­tex­to de espa­ço fis­cal limi­ta­do. Por isso, o impac­to econô­mi­co do setor não pode ser ava­li­a­do ape­nas pela arre­ca­da­ção tri­bu­tá­ria dire­ta que gera, mas deve con­si­de­rar tam­bém suas con­sequên­ci­as sobre o con­su­mo das famí­li­as, a ati­vi­da­de econô­mi­ca e as con­tas públicas.

 

[1] https://www.poder360.com.br/poder-economia/saldo-de-credito-sobe-102-em-2025-o-8o-crescimento-anual-seguido/

[2] O caso con­ser­va­dor assu­me ape­nas que os R$ 62,5 bilhões são uma per­da de ren­da dos 99% da base de dis­tri­bui­ção, e o cená­rio alter­na­ti­vo assu­mi­mos que, além dis­so, esses R$ 62,5 bilhões viram ren­da do 1% mais rico.

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