O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade
Este texto foi atualizado em 30 de setembro de 2026
POR Guilherme Klein
A expansão das bets no Brasil tem levantado preocupações em diferentes áreas, dos riscos de vício e seus impactos sobre a saúde aos efeitos sobre o endividamento e a situação financeira das famílias. Há, porém, uma dimensão menos explorada desse fenômeno. Quando uma parcela relevante da renda das famílias é transferida para as casas de apostas, os efeitos dessa transferência ultrapassam o orçamento doméstico. Neste exercício, buscamos dimensionar esses impactos sobre o consumo, o PIB, a arrecadação e a distribuição de renda.
Em um estudo recente, o Centro Celso Furtado estimou que, em 2025, houve uma transferência líquida das famílias para as plataformas de apostas – ou seja, a diferença entre o que é apostado e o que as pessoas recebem de volta – de cerca de R$ 62,5 bilhões.
Esse é um montante expressivo e pode acarretar uma série de problemas, como cortes em despesas essenciais, dificuldades para honrar compromissos financeiros e aumento do endividamento. Mas o que isso significa para a economia e para as contas públicas? O fato de que apenas parte do dinheiro gasto com apostas retorna às mãos das famílias implica uma redução do consumo, afetando negativamente o crescimento do PIB e a própria arrecadação do governo. O que estimamos, portanto, é o efeito sobre o restante da economia, isto é, sobre as demais atividades econômicas, excluídas as próprias apostas: o valor perdido com apostas deixa de ser gasto em bens e serviços de outros setores, e essa perda se propaga pela economia.
Para calcular esse efeito, utilizamos as estimativas de propensão marginal a consumir por diferentes faixas de renda, estimadas na Nota de Política Econômica (NPE) 8, e estimativas sobre quanto cada faixa de renda gasta em apostas. A propensão marginal a consumir mostra quanto de cada R$ 1 adicional de renda acaba se transformando em consumo. Ela tende a ser maior entre as famílias de menor renda: como uma parcela maior de suas necessidades ainda precisa ser atendida, um aumento de renda costuma se transformar mais diretamente em gastos com alimentação, moradia, vestuário, por exemplo. Entre as famílias de maior renda, por outro lado, uma parcela maior da renda adicional pode ser poupada. Portanto, quanto mais concentrada nas famílias mais pobres for essa perda de renda para as bets, maior será o efeito sobre o consumo agregado.
Procedimentos metodológicos e cenários
Para construir um primeiro cenário de distribuição das perdas com apostas entre as diferentes faixas de renda, partimos da distribuição dos próprios apostadores. Segundo o DataSenado (2024), 52% dos apostadores recebiam até 2 salários mínimos, 35% entre 2 e 6 salários mínimos e 13% acima de 6 salários mínimos. Já o IPESPE/FEBRABAN (2024) mostra que 45% da amostra tinha renda familiar de até 2 salários mínimos, 32% entre 2 e 5 e 23% acima de 5 salários mínimos; dentro de cada faixa, 9%, 14% e 14%, respectivamente, declararam apostar. Ao combinar a participação de cada faixa na população com sua taxa de participação nas apostas, estima-se que 34,5%, 38,1% e 27,4% dos apostadores da pesquisa pertenciam, respectivamente, a essas três faixas de renda. A média simples dos resultados das duas pesquisas, após a harmonização aproximada das faixas de renda, resulta em participações de 43%, 37% e 20%.
No cenário A, assumimos que essas proporções também correspondem à distribuição do volume perdido com apostas, o que equivale a supor que a perda média por apostador seja semelhante entre as diferentes faixas de renda.
No cenário B, admitimos que o volume de gastos com apostas é mais concentrado nas faixas de renda mais altas. Como não há uma distribuição observada da perda líquida especificamente para bets, usamos como referência a POF 2017–2018 do IBGE, Tabela 1.1.1 dos Primeiros Resultados, para a categoria mais ampla “jogos e apostas” (IBGE, 2019). Vale lembrar que, por ilustrar uma amostra referente ao biênio 2017–2018, o tamanho dessa categoria pode estar subestimado tendo em vista a crescente relevância das bets; o que dela extraímos é somente a proporção de gastos por faixa de renda. Multiplicando, em cada faixa, a despesa média mensal familiar pelo número de famílias e agregando as classes, obtemos aproximadamente 10,3% do gasto total entre famílias de até 2 salários mínimos, 40,8% entre 2 e 6 e 49,0% acima de 6 salários mínimos.

Estimamos ainda um terceiro cenário ©, em que não distinguimos a faixa de renda dos apostadores: supomos que a perda com apostas se propaga pela economia de acordo com o multiplicador médio estimado na NPE 8, de 1,875. Esse multiplicador reflete a distribuição de renda de toda a economia, e não apenas a dos apostadores, o que equivale a supor que, após o impacto inicial, a renda perdida pelos setores que deixam de vender aos apostadores se distribui entre famílias de todas as faixas de renda.
Resultados
Dados os multiplicadores estimados na NPE 8 e essas participações por faixa de renda, ou, no cenário C, o multiplicador médio da economia, estimamos que, em 2025, as apostas retiraram entre R$ 117 bilhões e R$ 141 bilhões das demais atividades econômicas (R$ 141 bilhões no cenário A, R$ 120 bilhões no B e R$ 117 bilhões no C), em razão da redução do consumo, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB. Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro.
Mesmo levando em conta as estimativas dos empregos diretos e indiretos criados associados às bets, como a produzida pela LCA Consultores, de cerca de 15,5 mil trabalhadores, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda total na economia, o quadro praticamente não muda.
Esse efeito negativo sobre o consumo também reduz a arrecadação do governo. Para estimar essa perda, fazemos um exercício simples: assumimos, em linha com diferentes estimativas, que uma queda de 1% do PIB provoca uma queda entre 0,8% e 1,2% na arrecadação (elasticidade-PIB da arrecadação entre 0,8 e 1,2). Como a carga tributária bruta do Governo Geral foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução das demais atividades estimada acima implicaria uma perda de arrecadação entre R$ 30,4 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Descontando os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas de apostas, o efeito líquido sobre as contas públicas ainda seria negativo em, no mínimo, R$ 21 bilhões, podendo chegar a até R$ 46 bilhões. Para dar uma dimensão desse valor, ele equivale a 10% e 20%, respectivamente, de todo o orçamento destinado à saúde pública na LOA de 2025. Em suma, embora as bets gerem arrecadação direta, a perda de atividade econômica que provocam mais do que compensa essa receita.
Até aqui, tratamos os R$ 62,5 bilhões como recursos que deixam de circular nas demais atividades. Pode-se argumentar, contudo, que parte do que as plataformas recebem retorna à economia: as casas de apostas compram serviços de publicidade, patrocínio, meios de pagamento e tecnologia de empresas instaladas no país, pagam salários e distribuem lucros. Para verificar se isso altera nossas conclusões, fizemos um exercício adicional com hipóteses favoráveis aos efeitos positivos das bets.[1]
Partimos da composição da receita das plataformas estimada pelo mesmo estudo da LCA Consultores para o setor: cerca de 58% para custos e despesas, 27% para tributos e 15% de margem de lucro. Aplicamos essa composição à receita bruta do mercado regulado em 2025, de cerca de R$ 37 bilhões segundo o Ministério da Fazenda (valor cujo componente tributário é compatível com a arrecadação direta observada). Dos custos, supomos que o equivalente a 34% da receita, ou R$ 12,5 bilhões, corresponda a compras de empresas instaladas no Brasil, sobretudo marketing e patrocínio; o restante corresponde a insumos importados, licenças e salários.[2] Para os salários, mantemos a estimativa do próprio setor de R$ 1 bilhão de renda total na economia. Para os lucros, supomos que gerem R$ 1 bilhão de consumo, o que, com a propensão a consumir do 1% mais rico estimada na NPE 8, exige que cerca de três quartos do lucro do mercado regulado sejam distribuídos a acionistas residentes no país, uma hipótese que nos parece generosa dado o peso de grupos estrangeiros no setor.
Aplicando o multiplicador médio da economia às compras de insumos e ao consumo dos lucros e somando o efeito dos salários, os gastos das plataformas devolvem cerca de R$ 26,3 bilhões às demais atividades. Com isso, a perda nas demais atividades cai para R$ 114,7 bilhões no cenário A, R$ 93,6 bilhões no cenário B e R$ 90,9 bilhões no cenário C, entre 0,7% e 0,9% do PIB. A perda de arrecadação, calculada da mesma forma que antes, ficaria entre R$ 23,6 bilhões e R$ 44,6 bilhões; descontados os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas, o efeito líquido sobre as contas públicas continua negativo, entre R$ 14,6 bilhões e R$ 35,6 bilhões (Tabela 2). Ou seja, mesmo com hipóteses favoráveis aos efeitos positivos das bets, mantém-se um efeito negativo relevante sobre as demais atividades e sobre a arrecadação.
Adicionamos ainda uma hipótese: supomos que a diferença entre os R$ 62,5 bilhões e a receita do mercado regulado corresponda ao mercado ilegal. Esse mercado tende a ter efeito menor sobre a demanda doméstica, uma vez que é operado sobretudo por empresas não residentes, que não mantêm estrutura, empregados ou patrocínios formais no país, nem recolhem tributos.
Ainda assim, para forçar ao máximo o argumento em favor das bets, consideramos também o caso limite em que o mercado ilegal gera demanda doméstica na mesma proporção que o regulado, aplicando a mesma composição de gastos aos R$ 62,5 bilhões e mantendo a arrecadação direta observada. Nesse caso, os gastos das plataformas devolveriam cerca de R$ 44,4 bilhões às demais atividades, e a perda nessas atividades seria de R$ 96,5 bilhões no cenário A, R$ 75,5 bilhões no B e R$ 72,8 bilhões no C, entre 0,6% e 0,8% do PIB. A perda líquida de arrecadação ficaria entre R$ 9,9 bilhões e R$ 28,5 bilhões. Mesmo nesse caso extremo, portanto, as bets reduzem a arrecadação (Tabela 2).

Em todos os cenários acima, supomos que o valor perdido com apostas seria, na ausência delas, integralmente gasto em outras atividades, ou seja, que nada dele seria poupado. Há, porém, outra possibilidade: parte das apostas pode ter sido financiada com redução da poupança ou com aumento do endividamento, em vez de corte do consumo. Nos dois casos, o efeito sobre o consumo e, portanto, a perda das demais atividades seriam menores, ao menos no curto prazo. Mas isso também significa que, nesse cenário, as bets estariam contribuindo para reduzir a poupança e aumentar o endividamento das famílias. No caso do endividamento, o saldo de crédito às pessoas físicas subiu cerca de R$ 450 bilhões em 2025 (de R$ 3,97 trilhões para R$ 4,42 trilhões)[3]. Se toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões tivesse sido financiada por novo crédito – uma hipótese extrema –, ela corresponderia a cerca de 14% desse aumento.
É possível também uma primeira aproximação sobre o efeito negativo na distribuição de renda. Levando em conta que o 1% mais rico fica com cerca de 24% de toda a renda do país (NPE 52), estimamos que essa transferência de dinheiro das famílias para as bets aumentou a concentração de renda no topo (1% mais rico) entre 0,5% e 2,1%, a depender da hipótese sobre quem recebe os lucros das casas de aposta – no primeiro caso, apenas retiramos os R$ 62,5 bilhões da renda dos 99% da base, enquanto no segundo adicionamos esse valor para o 1% mais rico. Mesmo no caso mais conservador, é um efeito significativo em um país em que a concentração de renda já é extremamente elevada.[4]
As apostas apresentam desafios de diversas ordens. Do ponto de vista econômico, o problema não se limita aos efeitos individuais, como o comprometimento da renda disponível para consumo e o aumento do endividamento. Esses efeitos também têm consequências macroeconômicas. Ao retirar renda das famílias, sobretudo das de menor renda, que tendem a destinar uma parcela maior de seus recursos ao consumo, as apostas podem aumentar a desigualdade, reduzir a demanda e afetar o PIB em magnitude potencialmente relevante, como estimamos aqui. A retração da atividade econômica, por sua vez, também reduz a arrecadação em um contexto de espaço fiscal limitado. Por isso, o impacto econômico do setor não pode ser avaliado apenas pela arrecadação tributária direta que gera, mas deve considerar também suas consequências sobre o consumo das famílias, a atividade econômica e as contas públicas.
[1] Essa análise foi adicionada ao post original.
[2] Dos 58% da receita que a LCA (2024) atribui a custos e despesas, descontamos salários (3% da receita), licenças (1%) e insumos importados (20%), restando 34%. O valor nos parece compatível com os gastos de marketing do setor (cerca de R$ 5,6 bilhões em futebol e mídia em 2023, segundo a LCA).
[3] https://www.poder360.com.br/poder-economia/saldo-de-credito-sobe-102-em-2025-o-8o-crescimento-anual-seguido/
[4] O caso conservador assume apenas que os R$ 62,5 bilhões são uma perda de renda dos 99% da base de distribuição, e o cenário alternativo assumimos que, além disso, esses R$ 62,5 bilhões viram renda do 1% mais rico.
