Dados do cuidado: correção das informações sobre tempo dedicado aos cuidados não remunerados no Brasil

Os dados de uso do tem­po reve­lam uma face impor­tan­te das desi­gual­da­des de gêne­ro, raça e clas­se, pois tra­zem visi­bi­li­da­de ao tem­po des­pen­di­do sobre­tu­do por mulhe­res no tra­ba­lho domés­ti­co de cui­da­do. Estas ati­vi­da­des, que vão des­de o cui­da­do com cri­an­ças e ido­sos até o pre­pa­ro de refei­ções e lim­pe­za da casa, são indis­pen­sá­veis para a con­ti­nui­da­de da vida, mas ficam de fora das esta­tís­ti­cas de tra­ba­lho quan­do são rea­li­za­das de for­ma não remu­ne­ra­da. Ao con­ta­bi­li­zar quan­tas horas as pes­so­as pas­sam em deter­mi­na­das ati­vi­da­des do seu dia, para além do tra­ba­lho remu­ne­ra­do, as pes­qui­sas de uso do tem­po mos­tram como este tra­ba­lho invi­sí­vel é mui­to mais rea­li­za­do por mulhe­res e, em espe­ci­al, por mulhe­res negras e de menor ren­da1Para saber mais sobre o que são as pes­qui­sas de uso do tem­po, sua impor­tân­cia e as meto­do­lo­gi­as comu­men­te uti­li­za­das, con­sul­te a NPE 64 do Made (Pires et al., 2025).

O Bra­sil pos­sui pou­ca tra­di­ção nas pes­qui­sas de uso do tem­po (Wajn­man et al., 2026). No que diz res­pei­to ao tem­po gas­to com tra­ba­lho de cui­da­do não remu­ne­ra­do, as infor­ma­ções ofi­ci­ais dis­po­ní­veis vêm do suple­men­to anu­al “Outras For­mas de Tra­ba­lho” da Pes­qui­sa Naci­o­nal por Amos­tra de Domi­cí­li­os Con­tí­nua (PNADc), do IBGE, e infor­mam o núme­ro de horas total des­pen­di­do em uma série de ati­vi­da­des de cui­da­do dife­ren­tes, além de infor­ma­rem se o entre­vis­ta­do rea­li­za ou não cada uma das ati­vi­da­des espe­cí­fi­cas. Para além de ques­ti­o­na­men­tos à vali­da­de da meto­do­lo­gia apli­ca­da pelo IBGE, hou­ve uma que­bra no padrão da série quan­do da mudan­ça da PNAD para a PNAD Con­tí­nua, que refor­ça a neces­si­da­de de um apri­mo­ra­men­to na pes­qui­sa (Jesus et al. 2023).

Com este diag­nós­ti­co em men­te, o Made, apoi­a­do pela Co-Impact, rea­li­zou uma par­ce­ria com pes­qui­sa­do­res2A base foi ela­bo­ra­da por Simo­ne Wajn­man, Cás­sio Tur­ra, Jor­da­na de Jesus e Miri­an Ribei­ro. do Cen­tro de Desen­vol­vi­men­to e Pla­ne­ja­men­to Regi­o­nal (Cede­plar-UFMG) para apri­mo­rar os dados de uso do tem­po do país, a par­tir de méto­dos demo­grá­fi­cos e esta­tís­ti­cos. A pes­qui­sa bus­cou melho­rar os dados rela­ti­vos às horas de tra­ba­lho de cui­da­dos não remu­ne­ra­dos des­pen­di­das por mulhe­res bra­si­lei­ras, a par­tir dos dados já dis­po­ni­bi­li­za­dos na PNADc para 2019. Os dados ajus­ta­dos per­mi­tem a rea­li­za­ção de novas aná­li­ses que melhor cap­tu­rem a dinâ­mi­ca de divi­são dos cui­da­dos nos domi­cí­li­os bra­si­lei­ros. A par­tir do tra­ba­lho desen­vol­vi­do, é pos­sí­vel desa­gre­gar as infor­ma­ções por sexo, raça, gru­po etá­rio, con­di­ção na famí­lia, ren­da domi­ci­li­ar per capi­ta e esco­la­ri­da­de.  Os micro­da­dos estão dis­po­ní­veis para down­lo­ad no GitHub do Made e são de livre aces­so e uti­li­za­ção, des­de que cita­da a fon­te. As espe­ci­fi­ca­ções téc­ni­cas sobre os méto­dos apli­ca­dos estão dis­po­ní­veis no WP 36 do Made. 

Foram desen­vol­vi­dos três méto­dos, que bus­ca­ram esti­mar de manei­ra mais pre­ci­sa as horas diá­ri­as de cui­da­do, medi­an­te a pos­sí­vel sub­no­ti­fi­ca­ção de horas para as mulhe­res na PNADc. Os méto­dos ino­vam ao se apoi­ar exclu­si­va­men­te em dados bra­si­lei­ros para rea­li­zar as novas esti­ma­ti­vas. Tam­bém foi esti­ma­da a divi­são das horas totais entre aque­las dedi­ca­das ao cui­da­do dire­to e ao indi­re­to, com base em infor­ma­ções da Pes­qui­sa Naci­o­nal de Uso do Tem­po (ENUT) da Colômbia.

Os resul­ta­dos mos­tram o tama­nho do tra­ba­lho de cui­da­dos não remu­ne­ra­do na roti­na das bra­si­lei­ras. As mulhe­res pas­sam, em média, um dia da sema­na (ou três horas e meia diá­ri­as) intei­ra­men­te dedi­ca­das à rea­li­za­ção des­ta tare­fa  – 2,7 vezes mais tem­po do que os homens.  Os dados tam­bém apon­tam dife­ren­ças sig­ni­fi­ca­ti­vas entre gru­pos raci­ais. Mulhe­res negras des­pen­dem mais horas diá­ri­as no tra­ba­lho de cui­da­do não remu­ne­ra­do do que mulhe­res bran­cas: cer­ca de 25 e 23 horas sema­nais, res­pec­ti­va­men­te. Por outro lado, homens negros e bran­cos des­pen­dem apro­xi­ma­da­men­te o mes­mo tem­po, cer­ca de nove horas sema­nais.  Além de rea­li­za­rem mais horas de cui­da­do, tan­to dire­to quan­to indi­re­to, as mulhe­res negras des­pen­dem, em média, uma pro­por­ção mai­or de seu tem­po no cui­da­do dire­to, com­pa­ra­ti­va­men­te às mulhe­res bran­cas, homens negros e homens brancos.

Tempo de trabalho não remunerado por gênero e raça

 

Refe­rên­ci­as

Jesus, J. C. de ., Tur­ra, C. M., & Wajn­man, S.. (2023). An Empi­ri­cal Method for Adjus­ting Time Use Data in Bra­zil. Dados, 66(4), e20210093. https://doi.org/10.1590/dados.2023.66.4.289

PIRES, L. N.; RESENDE, A. M.; TAIOKA, T.; PEREIRA, L. G. G. Pes­qui­sas de Uso do Tem­po: o que são e sua urgên­cia para o Bra­sil. São Pau­lo: Cen­tro de Pes­qui­sa em Macro­e­co­no­mia das Desi­gual­da­des (Made/USP), 2025. (NPE 64)

Wajn­man, S.,Turra, C. M, Jesus, J. C. de., Ribei­ro, M. M. Cor­re­ção das infor­ma­ções sobre tem­po dedi­ca­do aos cui­da­dos não remu­ne­ra­dos no Bra­sil. São Pau­lo: Cen­tro de Pes­qui­sa em Macro­e­co­no­mia das Desi­gual­da­des (Made/­FEA-USP), 2026. (Wor­king Paper, n.36).

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