Considerações sobre a reforma do Imposto de Renda

O Pro­je­to de Lei nº 1.087, apre­sen­ta­do pelo Exe­cu­ti­vo em abril de 2025, tinha dois obje­ti­vos cen­trais: (i) ampli­ar a fai­xa de isen­ção do Impos­to de Ren­da da Pes­soa Físi­ca (IRPF) — inte­gral até R$ 5 mil e par­ci­al entre R$ 5 mil e R$ 7 mil —, redu­zin­do a tri­bu­ta­ção de cer­ca de 10 milhões de con­tri­buin­tes; e (ii) ins­ti­tuir uma alí­quo­ta efe­ti­va – pro­por­ção do IRPF pago sobre a ren­da –  míni­ma de IRPF para ren­das ele­va­das, váli­da a par­tir de R$ 50 mil men­sais e che­gan­do a 10% para ren­das anu­ais supe­ri­o­res a R$ 1,2 milhão. Em ter­mos sim­ples, a pri­mei­ra medi­da bus­ca­va ele­var a ren­da dis­po­ní­vel da cha­ma­da “clas­se média”, enquan­to a segun­da pre­ten­dia redu­zir a regres­si­vi­da­de do sis­te­ma tri­bu­tá­rio — em que, hoje, os mais ricos pagam pro­por­ci­o­nal­men­te menos do que os mais pobres — e, ade­mais, asse­gu­rar a via­bi­li­da­de fis­cal da ampli­a­ção da isen­ção por meio de mai­or arre­ca­da­ção no topo da dis­tri­bui­ção de renda.

A desi­gual­da­de de ren­da bra­si­lei­ra ilus­tra a impor­tân­cia des­sa refor­ma. Os 10% mais ricos con­cen­tram 53,1% da ren­da naci­o­nal, enquan­to os 10% mais pobres ficam com ape­nas 0,9%. Na prá­ti­ca, pode-se dizer que o indi­ví­duo mais rico do país tem ren­da equi­va­len­te à soma dos 5 milhões mais pobres1. Com­bi­nan­do dados da PNADc e da Recei­ta Fede­ral.. No ran­king inter­na­ci­o­nal de con­cen­tra­ção de ren­da no 1% mais rico, o Bra­sil ocu­pa a 13ª pior posi­ção entre 176 paí­ses2. Uti­li­zan­do dados do World Ine­qua­lity Data­ba­se.. E o sis­te­ma tri­bu­tá­rio bra­si­lei­ro, em vez de cor­ri­gir esse dese­qui­lí­brio, con­tri­bui para aumentá-lo.

Esti­ma­ti­vas nos­sas (ver NPE 71 e Figu­ra 1) mos­tram que, no dese­nho atu­al, a alí­quo­ta efe­ti­va — pro­por­ção do IRPF pago sobre a ren­da — cres­ce até atin­gir o 1% mais rico, mas cai jus­ta­men­te no topo da pirâ­mi­de. Na prá­ti­ca, o sis­te­ma é pro­gres­si­vo ape­nas até a fai­xa de quem rece­be em tor­no de R$ 39 mil men­sais. Aci­ma des­se valor, quan­to mai­or a ren­da, menor é a pro­por­ção de impos­to pago.

Alíquota Efetiva do IRPF brasileiro pré e pós-reforma

O pare­cer do rela­tor Arthur Lira (PP-AL) man­te­ve qua­se inte­gral­men­te o tex­to ori­gi­nal do Exe­cu­ti­vo, mas ampli­ou ligei­ra­men­te a fai­xa de isen­ção par­ci­al, que ago­ra vai até R$ 7.350. Foi esse subs­ti­tu­ti­vo que aca­bou apro­va­do no Con­gres­so Nacional.

Do pon­to de vis­ta fis­cal, nos­sas esti­ma­ti­vas coin­ci­dem com as do pare­cer: a recei­ta adi­ci­o­nal da alí­quo­ta míni­ma sobre ren­das ele­va­das é sufi­ci­en­te para cobrir a ampli­a­ção da isen­ção (cer­ca de R$ 30 bilhões em 2026), inclu­si­ve com­pen­san­do even­tu­ais per­das de esta­dos e muni­cí­pi­os e redu­ção na dis­tri­bui­ção de divi­den­dos. Do pon­to de vis­ta dis­tri­bu­ti­vo, a desi­gual­da­de de ren­da medi­da pelo índi­ce de Gini3NPE 71 cai­ria em tor­no de 0,3%, a fatia da ren­da apro­pri­a­da pelos 99% mais pobres aumen­ta­ria, e a do 1% mais rico diminuiria.

A nos­sa aná­li­se da alí­quo­ta efe­ti­va reve­la três insights. Pri­mei­ro, como pode ser vis­to na Figu­ra 1, o sis­te­ma per­ma­ne­ce regres­si­vo: em média, alguém que ganha R$ 22 mil men­sais (quan­til 99) con­ti­nu­a­rá pagan­do, pro­por­ci­o­nal­men­te, mais impos­to do que quem rece­be R$ 100 mil ou mais4Em gran­de par­te, em decor­rên­cia da isen­ção de taxa­ção sobre lucros e divi­den­dos.. Segun­do, o impos­to míni­mo para ren­das ele­va­das reduz a regres­si­vi­da­de no topo da dis­tri­bui­ção, espe­ci­al­men­te entre os 0,2% mais ricos, isto é, aque­les com ren­da men­sal de cer­ca de R$ 106 mil. Como mos­tra a Figu­ra 2, em média, para quem rece­be entre R$ 50 mil e R$ 106 mil, a alí­quo­ta míni­ma pro­pos­ta é infe­ri­or à já paga e, por­tan­to, não have­rá aumen­to de impostos.

Alíquota efetiva atual e alíquota efetiva mínima

Por fim, o esta­be­le­ci­men­to do impos­to míni­mo asse­gu­ra mai­or iso­no­mia sobre agen­tes com alta capa­ci­da­de con­tri­bu­ti­va. Como mos­tra­mos na Figu­ra 3, a dife­ren­ça na alí­quo­ta efe­ti­va paga – isto é, a dife­ren­ça entre a alí­quo­ta efe­ti­va míni­ma e máxi­ma – entre con­tri­buin­tes de um mes­mo nível de ren­da se reduz de for­ma impor­tan­te para aque­les no topo da distribuição. 

Intervalo das alíquotas Nova proposta vs Regime atual

Embo­ra rela­ti­va­men­te modes­ta na tri­bu­ta­ção das gran­des ren­das e insu­fi­ci­en­te para tor­nar o sis­te­ma ple­na­men­te pro­gres­si­vo, a apro­va­ção do PL 1.087 repre­sen­ta um avan­ço rele­van­te na estru­tu­ra do IRPF bra­si­lei­ro. Como estu­da­do no WP 29, des­de 1947, ape­nas cin­co refor­mas aumen­ta­ram a pro­gres­si­vi­da­de, mas nenhu­ma o fez com a mes­ma inten­si­da­de ou com foco explí­ci­to nas ren­das mui­to altas — his­to­ri­ca­men­te subtributadas.

Por fim, uti­li­zan­do cál­cu­los da NPE 8 sobre a pro­pen­são mar­gi­nal a con­su­mir de dife­ren­tes clas­ses econô­mi­cas— isto é, quan­to cada fai­xa de ren­da gas­ta de cada R$ 1 rece­bi­do —, esti­ma­mos que a refor­ma deve gerar um incre­men­to do PIB entre R$ 23 bilhões e R$ 27 bilhões em 2026, cor­res­pon­den­do a um cres­ci­men­to adi­ci­o­nal do PIB de cer­ca de 0,2%. 

Ao mes­mo tem­po em que devol­ve ren­da à “clas­se média” e sus­ten­ta a arre­ca­da­ção, o PL 1.087 reduz um peda­ço visí­vel da regres­si­vi­da­de e ain­da deve impul­si­o­nar o cres­ci­men­to do PIB em 2026. É aquém do neces­sá­rio para uma ver­da­dei­ra jus­ti­ça tri­bu­tá­ria, mas é mui­to para um país que por déca­das nor­ma­li­zou tri­bu­tar menos quem mais pode contribuir.

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