Efeito da política de valorização do salário mínimo nas contas públicas: uma estimação que considera seus efeitos macroeconômicos

Após sete anos sem ganho real, o ter­cei­ro gover­no Lula propôs uma polí­ti­ca de valo­ri­za­ção do salá­rio míni­mo que, além de rea­jus­tar pela infla­ção acu­mu­la­da no ano ante­ri­or, con­si­de­ra tam­bém o cres­ci­men­to real do PIB do segun­do ano ante­ri­or ao ano vigen­te. No ano pas­sa­do, no entan­to, tal polí­ti­ca foi ajus­ta­da, como par­te do paco­te de ajus­te fis­cal anun­ci­a­do pelo minis­tro Fer­nan­do Had­dad: o paco­te incluiu um limi­te supe­ri­or para a valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo, que segue o índi­ce anu­al efe­ti­vo de cres­ci­men­to da des­pe­sa primária.

No entan­to, o deba­te sobre o cus­to fis­cal da polí­ti­ca de valo­ri­za­ção do salá­rio míni­mo veio à tona esta sema­na no Valor Econô­mi­co (e em outros veí­cu­los de mídia), a par­tir de cál­cu­los rea­li­za­dos pelo pro­fes­sor Fabio Giam­bi­a­gi. Uma vez que o salá­rio míni­mo inde­xa diver­sos bene­fí­ci­os soci­ais – como par­te dos gas­tos com apo­sen­ta­do­ria pelo INSS e gas­tos da Lei Orgâ­ni­ca da Assis­tên­cia Soci­al (LOAS) – sua valo­ri­za­ção sig­ni­fi­ca um mai­or gas­to do gover­no. O arti­go de Giam­bi­a­gi com­pa­ra, assim, qual o cus­to ime­di­a­to adi­ci­o­nal para o gover­no de se ter o ganho real do salá­rio míni­mo, com­pa­ra­ti­va­men­te a uma regra que ape­nas cor­ri­ge o valor pela inflação.

Con­tu­do, as dife­ren­tes polí­ti­cas e gas­tos do gover­no não têm o mes­mo efei­to macro­e­conô­mi­co. Como dis­cu­ti­do na NPE 55, por exem­plo, os bene­fí­ci­os soci­ais têm um efei­to mul­ti­pli­ca­dor ele­va­do, em com­pa­ra­ção com as des­pe­sas com pes­so­al e demais des­pe­sas. Assim, para com­pre­en­der o cus­to fis­cal de uma polí­ti­ca econô­mi­ca, é pre­ci­so con­si­de­rar seus efei­tos no cres­ci­men­to econô­mi­co, para além de seu cus­to ime­di­a­to. Um aumen­to de cres­ci­men­to econô­mi­co pode redu­zir o cus­to real da polí­ti­ca, uma vez que a arre­ca­da­ção tam­bém segue o rit­mo do cres­ci­men­to (San­ches e Car­va­lho, 2022).

Des­se modo, como os bene­fí­ci­os inde­xa­dos pelo salá­rio míni­mo são bene­fí­ci­os soci­ais com alto efei­to mul­ti­pli­ca­dor, com­ple­men­to nes­se Blog a esti­ma­ção do pro­fes­sor Giam­bi­a­gi com os efei­tos macro­e­conô­mi­cos e, con­se­quen­te­men­te, arre­ca­da­tó­ri­os de tal política.

 

As esti­ma­ti­vas de Giambiagi

Em seu estu­do, Giam­bi­a­gi con­si­de­ra a polí­ti­ca de valo­ri­za­ção do salá­rio míni­mo impos­ta pelo gover­no em 2023, bem como seu ajus­te apro­va­do em 2024, em com­pa­ra­ção com um cená­rio no qual o salá­rio míni­mo seria ajus­ta­do ape­nas pela infla­ção (cená­rio cha­ma­do de hipo­té­ti­co pelo autor). Ele então con­si­de­ra o peso que o salá­rio míni­mo tem no cus­to total do INSS (colu­na peso), para cal­cu­lar o mon­tan­te do INSS afe­ta­do pelo salá­rio míni­mo. Além dis­so, tam­bém con­si­de­ra os gas­tos com a LOAS, que são intei­ra­men­te afe­ta­dos. O resul­ta­do de pio­ra fis­cal, assim, é jus­ta­men­te a dife­ren­ça entre o mai­or gas­to com INSS e LOAS que decor­re da valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo, em com­pa­ra­ção ao que seria caso ele fos­se ajus­ta­do ape­nas pela infla­ção. A Tabe­la 1, abai­xo, repro­duz os núme­ros de Giambiagi.

Incluin­do o impac­to macro­e­conô­mi­co da política

Nes­te blog, com­ple­men­to as esti­ma­ti­vas de Giam­bi­a­gi para con­si­de­rar o efei­to de tal polí­ti­ca no cres­ci­men­to econô­mi­co e, con­se­quen­te­men­te, na arre­ca­da­ção. Como dis­cu­ti­do, a polí­ti­ca de valo­ri­za­ção do salá­rio míni­mo inde­xa diver­sos bene­fí­ci­os soci­ais, que tem alto efei­to mul­ti­pli­ca­dor, con­for­me esti­ma­do na NPE 55. O cres­ci­men­to econô­mi­co, por sua vez, tem efei­tos tam­bém na arre­ca­da­ção, con­for­me dis­cu­ti­do em San­ches e Car­va­lho (2022). Para as minhas esti­ma­ti­vas, usei os valo­res encon­tra­dos pelos pes­qui­sa­do­res do Made, e con­si­de­rei tam­bém um cená­rio mais “pes­si­mis­ta” – no qual os bene­fí­ci­os soci­ais não geram tan­to cres­ci­men­to assim e no qual a arre­ca­da­ção res­pon­de menos ao cres­ci­men­to. A Tabe­la 2 abai­xo resu­me os coe­fi­ci­en­tes uti­li­za­dos para este exercício.

Para encon­trar o efei­to que a polí­ti­ca de valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo tem no PIB, uti­li­zei então os valo­res de Giam­bi­a­gi (a colu­na “Pio­ra Fis­cal”), apli­can­do sobre eles o mul­ti­pli­ca­dor de Bene­fí­ci­os Soci­ais. Os resul­ta­dos do ganho de ren­da estão repor­ta­dos na Tabe­la 3.

O aumen­to da arre­ca­da­ção depen­de, den­tre outros fato­res, do cres­ci­men­to do PIB. Usan­do, assim, as esti­ma­ti­vas de elas­ti­ci­da­de da recei­ta em rela­ção ao PIB, pode­mos esti­mar como o ganho de ren­da da polí­ti­ca vol­ta em ter­mos de arre­ca­da­ção para o gover­no. Fei­to isso, temos então um novo qua­dro de cus­to fis­cal, ago­ra levan­do em con­si­de­ra­ção o efei­to macro­e­conô­mi­co com­ple­to da valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo. A colu­na de “poten­ci­al de gera­ção de recei­ta” mul­ti­pli­ca o ganho de PIB (em pro­por­ção do PIB daque­le ano) pela elas­ti­ci­da­de. Assim, temos o resul­ta­do de ganho da recei­ta (em rela­ção à recei­ta daque­le ano). A par­tir daí, mul­ti­pli­ca­mos este per­cen­tu­al de ganho de recei­ta pela recei­ta total daque­le ano (e pre­vis­ta para os pró­xi­mos), a par­tir de dados da LOA 2025. O cus­to fis­cal da polí­ti­ca é, então, o seu cus­to ime­di­a­to sub­traí­do do ganho arre­ca­da­tó­rio sub­se­quen­te. A Tabe­la 4 resu­me os resultados.

Por fim, assim como Giam­bi­a­gi, olho para o cus­to fis­cal acu­mu­la­do, que con­si­de­ra o cus­to de se car­re­gar tal défi­cit ao lon­go dos anos, caso não se tenha nenhu­ma medi­da com­pen­sa­tó­ria, a par­tir da taxa de juros média de cada ano.

Per­ce­be-se aqui a dife­ren­ça cau­sa­da pela sim­ples inclu­são do impac­to no cres­ci­men­to econô­mi­co – e o impac­to sub­se­quen­te na arre­ca­da­ção (colu­na dife­ren­ça para Giam­bi­a­gi). Nos cál­cu­los base­a­dos nas esti­ma­ti­vas do Made, essa dife­ren­ça che­ga a qua­se R$ 100 bilhões, enquan­to nos cál­cu­los com coe­fi­ci­en­tes mais “pes­si­mis­tas”, fica em qua­se R$ 60 bilhões.

Vale res­sal­tar tam­bém o impac­to dos juros nes­te resul­ta­do acu­mu­la­do do cus­to fis­cal. A um pata­mar tão alto de juros como este em que o Bra­sil se encon­tra, o cus­to de car­re­ga­men­to da dívi­da fica mui­to ele­va­do. Assim, o paga­men­to de juros cor­res­pon­de a 11,5% do cus­to acu­mu­la­do da política.

O pró­xi­mo governo

Seguin­do Giam­bi­a­gi, repi­to o exer­cí­cio para o gover­no Lula 3 para um pró­xi­mo gover­no. Mais uma vez, me baseio nas pro­je­ções de Giam­bi­a­gi para o PIB, o valor do salá­rio míni­mo, a taxa de juros e o cres­ci­men­to de bene­fi­ciá­ri­os. Para a arre­ca­da­ção, assu­mo a mes­ma taxa de cres­ci­men­to do PIB.

A par­tir des­se novo qua­dro de “pio­ra fis­cal”, os mul­ti­pli­ca­do­res são apli­ca­dos e, pos­te­ri­or­men­te, a elas­ti­ci­da­de da recei­ta, resul­tan­do no ver­da­dei­ro cus­to fiscal.

Por fim, repe­tin­do o mes­mo exer­cí­cio, cal­cu­la-se o cus­to acu­mu­la­do da política:

Assim como no caso do gover­no Lula 3, a manu­ten­ção de uma polí­ti­ca de valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo tem poten­ci­al de gera­ção de ren­da e arre­ca­da­ção para o pró­xi­mo gover­no. Em com­pa­ra­ção com o seu cus­to ime­di­a­to, ao se con­si­de­rar os efei­tos macro­e­conô­mi­cos o cus­to fis­cal fica entre R$ 60 e R$ 110 bilhões menor – a depen­der do cená­rio considerado.

Dis­cus­são

A pre­o­cu­pa­ção com a evo­lu­ção dos gas­tos e da dívi­da públi­ca é váli­da, mas deve ser fei­ta con­si­de­ran­do o con­tex­to macro­e­conô­mi­co e a com­po­si­ção dos gas­tos. Além da rele­vân­cia dos juros para sua evo­lu­ção – como dis­cu­ti­do nes­te Blog do Made –, dife­ren­tes gas­tos têm dife­ren­tes impac­tos para o cres­ci­men­to e, con­se­quen­te­men­te, para a arre­ca­da­ção. Con­for­me dis­cu­ti­mos nes­te outro Blog do Made, no con­tex­to do paco­te de ajus­te fis­cal anun­ci­a­do pelo minis­tro Fer­nan­do Had­dad no ano pas­sa­do, a esco­lha de onde se dará o ajus­te das con­tas públi­cas faz dife­ren­ça. Exis­tem gas­tos que têm menos impac­to no cres­ci­men­to econô­mi­co, com­pa­ra­ti­va­men­te a outros – como o gas­to com super­sa­lá­ri­os e com emen­das par­la­men­ta­res. Por­tan­to, a deci­são sobre ajus­te de polí­ti­cas públi­cas deve levar em con­si­de­ra­ção a com­po­si­ção do gas­to públi­co, e não ape­nas o impac­to ime­di­a­to e indi­vi­du­al da política.

Além dis­so, é pre­ci­so incluir os parâ­me­tros da nova regra fis­cal na dis­cus­são. Como mos­tra­mos na NPE 42, a atu­al regra fis­cal leva a uma que­da do gas­to como pro­por­ção do PIB – mes­mo con­si­de­ran­do o alto efei­to mul­ti­pli­ca­dor dos inves­ti­men­tos públi­cos –, colo­can­do em ris­co não ape­nas a polí­ti­ca de valo­ri­za­ção do salá­rio míni­mo, como mui­tas outras polí­ti­cas soci­ais importantes.

Por fim, cabe res­sal­tar que uma polí­ti­ca como a valo­ri­za­ção real do salá­rio míni­mo é essen­ci­al para a redu­ção de desi­gual­da­des, tam­bém no mer­ca­do de tra­ba­lho – como mos­tra­mos na NPE 30. Assim, não ape­nas o cus­to fis­cal de tal polí­ti­ca é mui­to menor do que o ime­di­a­to, devi­do ao alto efei­to mul­ti­pli­ca­dor, como sua impor­tân­cia para a dinâ­mi­ca macro­e­conô­mi­ca e das desi­gual­da­des não é desprezível.

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