Faz diferença onde cortar? Possibilidades e impactos do pacote de ajuste fiscal no cenário macroeconômico futuro
A trajetória de crescimento dos gastos obrigatórios tem gerado uma preocupação de não cumprimento das regras do novo arcabouço fiscal, o Regime Fiscal Sustentável (RFS). As metas apresentadas pelo governo para os próximos anos vislumbram um superávit primário igual a zero em 2024 e 2025, de 0,25% do PIB em 2026, de 0,5% em 2027 e de 1% em 20281https://www.gov.br/planejamento/pt-br/assuntos/noticias/2024/abril/governo-preve-resultado-primario-equilibrado-em-2025-e-crescente-nos-3-anos-seguintes. Acesso em 21/11/2024.. Para cumprir com esses objetivos, a equipe econômica do governo diz estar preparando um conjunto de propostas a serem apresentadas ao presidente da república2https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/06/haddad-pede-que-equipe-intensifique-trabalho-sobre-revisao-de-gastos.shtml. Acesso em 05/11/2024, com uma expectativa de cortes que impactem em 70 bilhões nas contas públicas até 2026, sendo R$30 bilhões em 2025 e R$ 40 bilhões em 20263https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/11/pacote-de-haddad-para-conter-gastos-deve-ter-impacto-de-r-70-bi-em-2025-e-2026.shtml. A discussão no momento é sobre onde serão feitos os cortes. Algumas hipóteses têm sido aventadas pela imprensa, como as mudanças na regra do salário mínimo, que indexa vários benefícios sociais, e possíveis cortes em supersalários.
Para a nossa análise, utilizamos os multiplicadores fiscais já estimados para a economia brasileira e consideramos a trajetória do gasto diante das regras do RFS. Isso significa afirmar que o gasto primário (sujeito à regra) poderá crescer até 70% do crescimento das receitas do ano anterior. Caso a meta do primário do ano anterior não tenha sido cumprida, o limite de crescimento é de 50%. Há, além disso, outra restrição delineada por um mecanismo anticíclico que define limites inferior e superior para a taxa de crescimento dos gastos públicos, em termos reais: 0,6% e 2,5%, respectivamente. Ademais, o resultado primário desejado é definido de acordo com uma banda para o cumprimento da meta de 0,25 pontos percentuais para mais ou para menos. É preciso lembrar, no entanto, que algumas despesas possuem uma projeção de crescimento maior do que a prevista pelo gasto primário, como é o caso do salário mínimo4A regra atual de crescimento do salário mínimo é de reajuste conforme a inflação no ano anterior mais a média de crescimento do PIB dos dois anos anteriores. e dos pisos constitucionais de educação e saúde. Isso faz com que tais gastos sejam colocados em disputa por espaço dentre as despesas obrigatórias.
Partindo da expectativa de corte de R$ 70 bilhões até 2026 e do cenário base da LDO para 2025, realizamos aqui uma simulação da projeção das despesas e receitas. Para tanto, consideramos alguns cenários a partir da combinação de impactos de possíveis cortes que vêm sendo divulgados pela imprensa nas últimas semanas. Estes cortes se dividem entre gastos sociais – provenientes de mudanças na regra do salário mínimo, por exemplo – e gastos correntes não sociais (como supersalários ou pensão de militares), sendo que cada um é associado a um multiplicador que melhor se adequa à sua natureza.
Seguindo os multiplicadores fiscais calculados na Nota de Política Econômica 55, gastos públicos associados a benefícios sociais possuem um alto efeito multiplicador, equivalente a 2,15. Isso porque as pessoas que recebem esses benefícios consomem uma alta parcela de sua renda (possuem uma alta propensão a gastar), fazendo com que o governo tenha um retorno maior, via impostos, ao realizar esse gasto. Quanto maior for a parcela poupada da renda, menor será o efeito multiplicador do gasto público associado a essa população. Dessa forma, despesas públicas não indexadas ao salário mínimo são consideradas com um efeito multiplicador igual a 1, enquanto os gastos realizados com população que recebe supersalários5https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/10/ministerio-da-fazenda-quer-limitar-supersalarios-e-mudar-seguro-desemprego-para-reduzir-despesas.shtml são considerados sem efeito multiplicador (visto que essa população tem uma alta propensão a poupar). Segundo também a NPE 55, a despesa total tem um multiplicador igual a 0,5, que também foi considerado em um dos cenários.

Desse modo, elaboramos três cenários a partir do corte de R$70 bilhões até 2026:
- O primeiro cenário consiste em um corte de R$ 70 bi feito inteiramente com gastos sociais, que possuem multiplicador igual a 2,15.
- No segundo cenário, consideramos o multiplicador da despesa total, igual a 0,5, também aplicado ao corte de R$70 bi.
- O terceiro cenário contempla uma combinação de cortes com supersalários (multiplicador igual a zero), salário mínimo (multiplicador de benefícios sociais) e demais gastos não indexados ao salário mínimo (multiplicador igual a 1). Para isso, consideramos uma redução de R$ 5 bi com supersalários6https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/avaliada-pelo-governo-limitacao-de-supersalarios-poderia-gerar-economia-de-r-5-bi/. Acesso em 21/11/2024. em 2025; entre 2025 e 2028 um total de R$ 22 bi com mudanças no valor de reajuste salário mínimo real7https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/11/limitar-ganho-real-do-salario-minimo-pode-poupar-r-11-bi-ate-2026-estima-governo.shtml. Acesso em 21/11/2024.; e redução com demais gastos não indexados ao salário mínimo de R$ 19,5 bi em 2025, R$ 34,5 bi em 2026. Aqui, o multiplicador utilizado foi uma ponderação do equivalente a cada tipo de gasto e sua participação no corte total daquele ano.
Os gráficos abaixo apresentam os resultados das simulações para a taxa de crescimento do PIB, as despesas primárias e o resultado primário em proporção ao PIB, em comparação com o cenário base da LDO. Observa-se que, para todos os cenários, há uma queda na taxa de crescimento do PIB, sendo essa queda maior quanto maior for o valor do multiplicador (Figura 1). Como consequência da queda do nível de atividade, espera-se também uma queda das receitas8Utilizamos a elasticidade das receitas em comparação ao PIB encontrado por Sanches e Carvalho (2022) e igual a 1,2., que impacta o limite disponível para as despesas primárias no futuro.
Na nossa simulação, em todos os cenários considerados há necessidade de novos cortes de gastos em 2027 e 2028: devido à queda do PIB, e consequentemente das receitas, a própria adequação à regra fiscal exigiria novos cortes de gastos no futuro, em comparação com os previstos na LDO deste ano (Tabela 2)9Os cortes futuros exigidos pelo funcionamento da RFS foram incluídos com multiplicador igual a 1 de despesa geral.. Dito de outra maneira, uma redução no nível do PIB e da arrecadação num primeiro momento leva à uma redução também ao longo do tempo, devido à uma base menor para o cálculo das taxas de crescimento. No entanto, estes cortes futuros poderiam ser evitados caso ocorram políticas de aumento da arrecadação (como a taxação de super-ricos)10https://madeusp.com.br/2024/10/qual-seria-o-efeito-arrecadatorio-e-distributivo-de-um-imposto-minimo-sobre-os-milionarios-brasileiros-e-isencao-de-irpf-ate-r-5-mil/ .


Na Figura 2, percebemos que a despesa primária cai em proporção ao PIB quando comparada com o cenário elaborado na LDO. Reforçamos aqui também a discussão trazida na Nota de Política Econômica 42: em um cenário de crescimento econômico, o RFS leva a uma queda contínua dos gastos primários (Despesa Primária) em proporção ao PIB. Tal queda na Despesa Primária, por outro lado, leva a cenários superavitários no futuro, com o resultado primário positivo em todos os anos que seguem os cortes dos gastos – e com os valores para 2027 e 2028 próximos dos projetados na LDO (Figura 3). Em resumo, um cenário de crescimento econômico possibilita melhora no resultado fiscal, em parte, às custas dos gastos primários.
Destaca-se aqui a importância de o governo adequar os cortes de gastos tendo em vista critérios distributivos e macroeconômicos. Gastos sociais são não apenas redutores de desigualdades mas também importam significativamente para o crescimento econômico – e, consequentemente, para o próprio espaço fiscal futuro. Os cortes devem, portanto, ser focados em gastos de baixo multiplicador, que comumente são aqueles que atingem os mais ricos. Desse modo, é possível criar um cenário de melhora fiscal sem aumentos nas desigualdades e com baixo impacto no crescimento econômico.


Referências
BRENCK, C.Z. et. al. “Considerações sobre o regime fiscal sustentável e a importância do investimento público para seu funcionamento”. Nota de Política Econômica nº 42. Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (MADE-USP), 2023. https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/npe-42-consideracoes-sobre-o-regime-fiscal-sustentavel-e-a-importancia-do-investimento-publico-para-seu-funcionamento/.
SANCHES, M.; CARVALHO, L. A contribuição da política fiscal para a crise brasileira de 2015–2016: uma análise baseada em multiplicadores de despesas e receitas primárias do governo central no período 1997–2018. Nova Economia, v.32, n.1, p.7–36, 2022.
SANCHES, M.; RODRIGUES, H.; KLEIN, G.; “Ajuste via receita ou via gasto? Cenários de ajuste fiscal considerando estimativas de efeitos multiplicadores”. Nota de Política Econômica nº 55. Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (MADE-USP), 2024. https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/npe-55-ajuste-via-receita-ou-via-gasto-cenarios-de-ajuste-fiscal-considerando-estimativas-de-efeitos-multiplicadores/
