Motoristas de aplicativo e a “liberdade” para trabalhar até 12 horas

“Eu só não saí da Uber por­que hoje, o apli­ca­ti­vo é a melhor empre­sa que tem para a gen­te tra­ba­lhar, mas em ter­mo de con­ta­to, de par­ce­ria, não exis­te par­ce­ria não com a Uber não. Não exis­te. Como pode ser par­cei­ro sem ter con­ta­to? (…) Eu dis­se, como é que nós não pode­mos conhe­cer se somos nós que tra­ze­mos o dinhei­ro para den­tro da empre­sa? Tu enten­deu? (…) A gen­te é excluído”.

Esse é o rela­to mais reve­la­dor que obti­ve den­tre as entre­vis­tas que cole­tei para minha tese de dou­to­ra­do sobre os vín­cu­los entre tra­ba­lha­do­res de apli­ca­ti­vos e as empre­sas-pla­ta­for­ma (a orga­ni­za­ção que ope­ra apli­ca­ti­vos como Uber, Ifo­od), em dezem­bro de 2020 (Quei­roz, 2021). O entre­vis­ta­do esta­va expres­san­do sua desi­lu­são com a orga­ni­za­ção por não com­pre­en­der suas regras e por não ter a opor­tu­ni­da­de de ser ouvi­do antes de ser suma­ri­a­men­te excluí­do da pla­ta­for­ma por uma semana.

Ele é um homem negro, casa­do, com três filhos, com ensi­no fun­da­men­tal, que tra­ba­lha com car­ro alu­ga­do por 10 horas ou mais por dia, resi­den­te de For­ta­le­za-CE. Ele exem­pli­fi­ca os resul­ta­dos da últi­ma PNAD Con­tí­nua (IBGE, 2023) sobre tra­ba­lha­do­res pla­ta­for­mi­za­dos, que são aque­les que rea­li­zam seu tra­ba­lho por meio de pla­ta­for­mas digi­tais de ser­vi­ços, tais como moto­ris­tas e entre­ga­do­res de aplicativo.

A pes­qui­sa reve­lou que a mai­o­ria des­ses tra­ba­lha­do­res é do sexo mas­cu­li­no, com ensi­no médio com­ple­to ou supe­ri­or incom­ple­to, que tra­ba­lham por con­ta pró­pria em ati­vi­da­des de trans­por­te, arma­ze­na­gem e cor­reio. Entre as pla­ta­for­mas mais uti­li­za­das a pes­qui­sa reve­lou que a mai­o­ria uti­li­za apli­ca­ti­vo para trans­por­te de pas­sa­gei­ro ou para entre­ga de comi­da ou produtos.

Ao indi­car o apli­ca­ti­vo como “melhor empre­sa para tra­ba­lhar, o entre­vis­ta­do des­ta­ca aspec­tos favo­rá­veis indi­ca­dos por vári­os moto­ris­tas, como a fle­xi­bi­li­da­de de horá­ri­os, a ausên­cia de um super­vi­sor dire­to, a sim­pli­fi­ca­ção dos pro­ces­sos de recru­ta­men­to e sele­ção, e a remu­ne­ra­ção variá­vel, com paga­men­to por pro­du­ti­vi­da­de. Os tra­ba­lha­do­res que atu­am por meio de pla­ta­for­mas têm indi­ca­do que a fle­xi­bi­li­da­de é um dos atra­ti­vos, pois podem con­ci­li­ar esse tra­ba­lho com outros com­pro­mis­sos, mui­tas vezes rela­ci­o­na­dos a ques­tões fami­li­a­res, como bus­car filhos e côn­ju­ge no trabalho.

No entan­to, quan­do algo fora do espe­ra­do acon­te­ce, não há uma estru­tu­ra orga­ni­za­ci­o­nal para entrar em con­ta­to, ape­nas um chat com res­pos­tas robó­ti­cas, e mui­to menos alguém para inter­me­di­ar con­fli­tos entre moto­ris­tas e cli­en­tes. A pre­sen­ça da orga­ni­za­ção é vir­tu­al, dis­tan­te, dei­xan­do o tra­ba­lha­dor livre para tomar suas deci­sões. Ou à mer­cê da pró­pria sorte.

A tese men­ci­o­na­da ante­ri­or­men­te, inti­tu­la­da “O tra­ba­lho, as prá­ti­cas de ges­tão e os vín­cu­los na Eco­no­mia Gig: um estu­do com moto­ris­tas de apli­ca­ti­vos”, foi defen­di­da em 2021 no Pro­gra­ma de Pós-Gra­du­a­ção em Admi­nis­tra­ção da Facul­da­de de Eco­no­mia, Admi­nis­tra­ção e Con­ta­bi­li­da­de (FEA) da Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (USP).

Os resul­ta­dos da tese apon­tam, em pri­mei­ro lugar, que o con­tex­to do mer­ca­do de tra­ba­lho, infor­mal e des­re­gu­la­men­ta­do, dão a con­fi­gu­ra­ção neces­sá­ria para o app se desen­vol­ver: altas taxas de desem­pre­go e neces­si­da­de dos tra­ba­lha­do­res de com­ple­men­tar a ren­da que ganham. Em segun­do lugar, a eco­no­mia gig con­ta com prá­ti­cas simi­la­res à ges­tão de pes­so­as, mas são con­du­zi­das mais pelos tra­ba­lha­do­res que pelas orga­ni­za­ções-pla­ta­for­mas, como a bus­ca para ingres­sar no apli­ca­ti­vo e o trei­na­men­to para o tra­ba­lho. Além dis­so, para mui­tos tra­ba­lha­do­res, há a pre­sen­ça de uma rede de apoio, com­pos­ta pela famí­lia ou ami­gos, que auxi­li­am em ques­tões de segu­ran­ça, com­par­ti­lhan­do a loca­li­za­ção e lidan­do com outros pro­ble­mas coti­di­a­nos rela­ci­o­na­dos ao trabalho.

Os resul­ta­dos da pes­qui­sa tam­bém demons­tram que os tra­ba­lha­do­res con­ti­nu­am a sen­tir com­pro­me­ti­men­to, um vín­cu­lo de dedi­ca­ção e res­pon­sa­bi­li­da­de, com o tra­ba­lho e com as orga­ni­za­ções-pla­ta­for­ma. Porém, esse com­pro­me­ti­men­to é pul­ve­ri­za­do entre vári­os focos (vári­os apli­ca­ti­vos, outras fon­tes de ren­da) e não ape­nas com uma úni­ca orga­ni­za­ção, como acon­te­ce com tra­ba­lha­do­res do tra­ba­lho for­mal. Além dis­so, os tra­ba­lha­do­res são entrin­chei­ra­dos com esse tra­ba­lho, se sen­tem pre­sos, dian­te da fal­ta de alter­na­ti­vas do mer­ca­do e pela gami­fi­ca­ção pra­ti­ca­da pelas plataformas.

O Gover­no Fede­ral, a par­tir de um gru­po de tra­ba­lho, aca­ba de pro­por um pro­je­to de lei para regu­la­men­tar o tra­ba­lho por app, que inclui um valor míni­mo por hora tra­ba­lha­da, licen­ça mater­ni­da­de e con­tri­bui­ção para a apo­sen­ta­do­ria. O gru­po de tra­ba­lho espe­rar cri­ar uma nova cate­go­ria, “tra­ba­lha­dor autô­no­mo por pla­ta­for­ma”. Na prá­ti­ca, sig­ni­fi­ca uma sub­ca­te­go­ria se com­pa­ra­da com os tra­ba­lha­do­res cele­tis­tas, per­mi­tin­do até 12h de tra­ba­lho diá­ri­as e a res­pon­sa­bi­li­da­de sobre os cus­tos com com­bus­tí­vel, manu­ten­ção do veí­cu­lo, celu­lar, inter­net e tan­tos outros.

Quan­to a esse pro­je­to e ao tra­ba­lho por apli­ca­ti­vo, mui­tas ques­tões pre­ci­sam ser res­pon­di­das ain­da: o valor míni­mo é por hora tra­ba­lha­da ou por tem­po dis­po­ní­vel para tra­ba­lhar no app? Como pode ser cha­ma­do de autô­no­mo o tra­ba­lha­dor que não tem aces­so ao algo­rit­mo que geren­cia seu tra­ba­lho? O moto­ris­ta pode­rá recu­sar cor­ri­das sem medo de ser excluí­do da pla­ta­for­ma que o cha­ma de autô­no­mo? Essa nova cate­go­ria pode­rá se esten­der para outros seto­res da eco­no­mia? Que qua­li­da­de de vida pode­rão ter tra­ba­lha­do­res que são livres para tra­ba­lhar 12h diá­ri­as e pagar os cus­tos do pró­prio tra­ba­lho? Que soci­e­da­de tere­mos com tra­ba­lha­do­res sem tem­po para si e para a vida social?*

*A res­pon­sa­bi­li­da­de pelo con­teú­do des­te tex­to é exclu­si­va da auto­ra e não refle­te neces­sa­ri­a­men­te a posi­ção ou opi­nião do Made.

Referências bibliográficas

IBGE. (2022). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: teletrabalho e trabalho por meio de plataformas digitais. Em Coordenação de Pesquisas por Amostra de Domicílios (Série Coleção Ibgeana).

Queiroz, G. C. (2021). O trabalho, as práticas de gestão e os vínculos na economia Gig:  um estudo com motoristas de aplicativos. Tese de Doutorado, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, Universidade de São Paulo, São Paulo. doi:10.11606/T.12.2021.tde-30082023-191758. Recuperado em 2024-03-12, de www.teses.usp.br